(Alexsander Ferraz/AT) No Brasil, onde a busca pela redução de custos na logística é um tema constante de debate, é quase irônico que a principal "mercadoria" transportada pelas rodovias seja o "ar". De acordo com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), cerca de 38% dos caminhões no país circulam vazios, evidenciando que a ociosidade é um dos maiores desafios logísticos a ser enfrentado. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Nesse contexto, uma estratégia eficaz para enfrentar esse desafio é o frete de retorno. Trata-se de uma prática que visa aproveitar os trajetos de retorno dos caminhões para transportar cargas, evitando viagens vazias. Estudos mostram que essa abordagem pode reduzir, em média, 24% das emissões de carbono e 16% das distâncias percorridas. Além disso, uma pesquisa canadense no setor madeireiro revelou que otimizar apenas 15% das viagens de retorno pode gerar economias de 6% a 7% nos custos totais de transporte. Essa estratégia pode ser muito útil para reduzir os custos nos portos, que, devido ao grande volume de caminhões, são ambientes ideais para essas operações. Por exemplo, o Porto de Santos, que movimenta cerca de 3 milhões de caminhões por ano, recebeu, em 2018, veículos de mais de 800 municípios, sendo que, em pelo menos 300 deles, houve a presença de um caminhão por dia. Apesar de ser um conceito bem conhecido no setor portuário, especialmente no transporte de fertilizantes para o Centro-Oeste, o frete de retorno ainda é subutilizado. Isso ocorre porque, apesar dos benefícios, realizar o frete de retorno é um desafio considerável. Primeiro, há uma falta de transparência nas informações sobre a disponibilidade de transporte e mercadoria. Isso faz com que essa prática dependa fortemente da ação de intermediários locais. Esses agentes concentram as informações sobre a disponibilidade de veículos e cargas, dificultando a ampla captura dos benefícios tanto por embarcadores quanto por transportadores. Além disso, há um desbalanceamento no fluxo de mercadorias. No Porto de Santos, por exemplo, aproximadamente 70% da movimentação é de exportação e apenas 30% de importação, o que resulta em uma maior oferta de veículos do que de mercadorias para serem transportadas. Ademais, a predominância de motoristas autônomos no mercado de transporte representa um obstáculo considerável para empresas que necessitam de muitos caminhões. Para superar esses desafios, os portos devem investir em colaboração e transparência. A prioridade deve ser reduzir a assimetria de informação, adotando tecnologias que melhorem a visibilidade e a coordenação. Uma possível solução é criar plataformas que integrem e divulguem informações sobre a disponibilidade de veículos e cargas. Além disso, expandir o alcance dessas informações para incluir empresas fora da área portuária pode ajudar a equilibrar o desbalanceamento entre mercadorias e caminhões. Por fim, é essencial reconhecer que o frete de retorno pode desempenhar um papel central na transformação da logística brasileira. A verdadeira inovação no transporte não se limita à adoção de novas tecnologias, mas sim à maximização dos recursos existentes. Expandir o uso do frete de retorno nos portos é um passo fundamental se quisermos alcançar um modelo logístico mais competitivo para o futuro.