(Adobe Stock) Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) evoluiu de uma tendência emergente para uma força transformadora nas empresas globais, incluindo o setor portuário. A verdadeira explosão no uso de IA ocorreu com o advento dos grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), como o ChatGPT da OpenAI, que ganhou destaque ao ser lançado no final de 2022. Rapidamente, novas soluções como Gemini, da Google, Claude, da Anthropic, e o LLAMA, da Meta, entraram na competição, oferecendo IA com capacidades cada vez mais impressionantes. Esse avanço tecnológico gerou um fenômeno semelhante à “consumerização” de dispositivos pessoais no ambiente corporativo, levando funcionários a utilizarem essas ferramentas de IA por conta própria, muitas vezes sem o conhecimento ou a aprovação da empresa. Uma pesquisa recente elaborada pela Microsoft em parceria com o LinkedIn revelou que 75% dos funcionários utilizam IA no trabalho, sendo que mais da metade não informa seus empregadores sobre o uso dessas ferramentas. O motivo principal é a busca por produtividade. Ferramentas como ChatGPT e seus concorrentes permitem que os usuários automatizem respostas, criem relatórios, gerem os mais diversos tipos de conteúdo e até desenvolvam ideias estratégicas com muito mais rapidez. No entanto, o uso indiscriminado de IA pode comprometer gravemente a segurança de dados empresariais. No setor portuário, esses riscos são ainda mais críticos. A utilização não autorizada de IA pode causar vazamentos de informações relacionadas à localização de cargas valiosas ou perigosas, expondo-as a roubos ou ataques. Pode também revelar integrações críticas entre sistemas de controle de guindastes, câmeras de segurança e logística, facilitando invasões cibernéticas. Além disso, dados sensíveis do ISPS Code, responsável por garantir a segurança contra ameaças terroristas e atos ilícitos nas instalações portuárias, podem ser comprometidos. A propriedade industrial e segredos comerciais sobre as operações portuárias, contratos e patentes tecnológicas também podem ser comprometidas. Esses problemas são agravados pelo uso de IAs gratuitas, que frequentemente não possuem camadas adequadas de proteção de dados, deixando a empresa exposta a vulnerabilidades severas. As Big Techs possuem soluções corporativas pagas que oferecem maior controle sobre a privacidade dos dados. O ChatGPT já disponibiliza uma versão para equipes, com restrições no uso de dados. O Claude, da Anthropic, anunciou que em breve lançará uma solução corporativa, enquanto o Gemini, do Google, já está integrado ao Google Workspaces, permitindo um ambiente colaborativo seguro, assim como a Microsoft, que integrou o ChatGPT ao Microsoft 365 através do Bing. Ainda assim, essas soluções, embora seguras, são genéricas. Para empresas (especialmente as do Setor Portuário) é essencial investir em soluções de IA personalizadas, ajustadas para atender às particularidades do setor, como conformidade com o ISPS Code e gerenciamento integrado de cargas. Além da adoção de soluções de IA personalizadas, o treinamento dos funcionários é uma parte fundamental desse processo. Ensinar as equipes a trabalhar com IAs corporativas não apenas aumenta a segurança, mas também a produtividade. Com o domínio da engenharia de prompts e a compreensão da dinâmica dos modelos de linguagem, as equipes podem obter respostas mais precisas e relevantes, economizando tempo e otimizando operações. O setor portuário já busca a inovação como um dos pilares de seu crescimento. Adotar IA com segurança é o próximo passo natural para impulsionar essa transformação e garantir que, enquanto as empresas se tornam mais ágeis e eficientes, sua infraestrutura crítica permaneça protegida. Para as empresas portuárias, o uso da IA pode revolucionar operações e melhorar drasticamente a produtividade, mas isso deve ser feito com a devida cautela. Investir em soluções de IA corporativas e capacitar os colaboradores para o uso dessas ferramentas é essencial para garantir a segurança e o sucesso no longo prazo. *Engenheiro de computação, sócio-fundador da T2S, professor e pesquisador na Fatec Rubens Lara