Raios ou tempestades?

Kaio Jorge e a supervalorização das estrelas da base do Santos

Por: Alexandre Fernandes  -  07/11/18  -  23:10
Kaio Jorge, de 16 anos, negocia novo contrato com o Santos
Kaio Jorge, de 16 anos, negocia novo contrato com o Santos   Foto: Ivan Storti/Santos FC

A Tribuna On-line mostrou na última terça-feira (6) a indefinição no Santos em torno da permanência do atacante Kaio Jorge, uma das estrelas das categorias de base. O clube quer que ele assine seu primeiro contrato como profissional, mas a oferta não foi bem recebida pelos representantes do atleta de 16 anos.


A reportagem traz declarações de Jorge Ramos, pai de Kaio Jorge. De um jeito bem sincerão, ele revelou algumas de suas pretensões, como valores maiores de salários e luvas, porcentagem nos direitos econômicos...


Vamos combinar que exigências assim não surpreendem. Pai de jovem jogador, em geral, é tipo mãe de miss, acha que o filho é um fenômeno e que ele merece uma valorização o quanto antes.


Mas, entre tudo o que Ramos disse, me chamou mais atenção o desejo dele de ver Kaio Jorge já integrado ao elenco profissional. Ele simplesmente deu a entender que o garoto não tem mais o que evoluir jogando na categoria sub-17.


Ok, digamos que isso realmente seja um fato. Mas entre o sub-17 e o profissional tem o sub-20. O Kaio Jorge é uma joia tão especial assim que não teria nada para aprender nessa categoria?


Com base nisso, lanço aqui uma reflexão: será que a fama de "fábrica de raios" não está se tornando um fardo para o Santos? Seria muito irônico, não?


Vamos lembrar do caso Rodrygo. Antes do então técnico Elano lançá-lo no time profissional, no final de 2017, o atacante, então com 16 anos, quase foi embora. Tudo bem que, nesse caso, consta que havia uma proposta do Liverpool para levá-lo. Mas isso obrigou o Santos a mover mundos e fundos para lhe oferecer um bom contrato.
Rodrygo, já vendido ao Real Madrid por 45 milhões de euros sem sequer ter passado pelo time sub-20 e com poucos jogos como profissional, parece ter virado referência para pais e representantes dos jovens jogadores do Santos.


Como o clube tem tradição de não ter medo de lançar garotos, os jogadores que se destacam do sub-17 para baixo já vêm com o carimbo de "raio", uma chancela para eles subirem o quanto antes para o profissional. E é aí que os estafes desses atletas fazem a festa, obrigando o clube a propor contratos muito vantajosos para garotos com idade tão baixa.


Isso talvez seja um dos motivos da queda de desempenho do time sub-20. Não faz muito tempo o Santos era campeão da Copa São Paulo e paulista da categoria. Nos últimos anos, porém, tem sido um fiasco, a ponto de não conseguir se classificar para a segunda fase do Campeonato Paulista deste ano.


É bom a diretoria do Santos pensar num jeito de lidar com essa situação. O clube gosta desse rótulo de "fábrica de raios"? Tudo bem. O que não pode é esses raios serem quase sempre prenúncios de tempestades.


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