(Imagem ilustrativa/Pixabay) Emendas de vereadores, deputados e senadores aos orçamentos governamentais foram uma boa ideia. A população veria seus anseios por políticas públicas e demandas comunitárias atendidos por seus representantes mais próximos. Os legisladores seriam os intermediários que levariam parte do dinheiro do cidadão para aquilo de que a população mais precisasse. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A ideia, porém, foi sepultada no cemitério das boas intenções pelo desvirtuamento desse esperado benefício ao povo. Basta ver como as emendas viraram moeda de troca na relação entre Congresso e Governo Federal. E essa moeda vale cada vez menos, pois é preciso dinheiro público em volume crescente para que deputados e senadores aceitem votar até mesmo o que é de interesse público. A inflação do custo da emenda parlamentar para o eleitor e também para quem não vai às urnas transformou esse instrumento numa ampla rede de compra de votos. O legislador vende seu voto para o governante. O governante aluga o legislador para interesse temporário, como se faz com um quarto de hotel ou um carro em uma locadora. E o eleitorado? Irrita-se, se insurge contra essa malandragem, ameaça mandar esses elementos para casa ao lhes negar o voto na próxima eleição? Não. Ele também quer participar da brincadeira. Cidadãos, reunidos em instituições associativas ou que se apresentam como líderes comunitários, se oferecem para votar em quem favorecer certo interesse. Até sonham com ofertas. Porque, um dia, esses líderes locais poderão ser aquinhoados como herdeiros políticos daqueles que deixarão o cargo que ocupam rumo a um posto mais avançado, em uma esfera mais elevada. E esse que tiver crescido na carreira política poderá contar com um representante local que, tempos atrás, havia se beneficiado dos favores que recebeu dele. Tudo sob a lei, mas nem sempre moral. Os políticos honestos, que não fazem parte desse desvio de finalidade do dinheiro público — e eles existem —, nem por isso estão salvos do Juízo Final da atividade político-partidária. De forma indireta, ajudam a manter esse esquema ao não contribuir no preparo de futuras lideranças decentes, que defendam caminhos para o coletivo e em favor dele. Esses líderes que deveriam surgir talvez não obtivessem votos suficientes de imediato, mas teriam base ideológica (no sentido de um conjunto de ideias, de princípios, de pontos de vista, pois ideologia quer dizer modo de pensar) para incutir na coletividade, aos poucos, o significado das coisas públicas e do uso que se faz, e do que não se deve fazer, delas. No longínquo, mas não impossível, dia em que o mundo não for somente dos espertos e houver espaços para os expertos — procure no dicionário, se não tiver entendido a sutileza — , as emendas parlamentares aos orçamentos voltarão a ter razão de ser. Mas isso começa pelo eleitor que não pretende se candidatar a cargo eletivo só por ter a perspectiva de um belo salário, folgar todo fim de semana e não precisar exercer sua profissão de origem. É preciso que se emende.