(FreePik) O fato de hoje faltar uma semana para o término da janela partidária é o de menos na configuração com que os partidos políticos e seus pré-candidatos se apresentarão nas eleições que ocorrerão daqui a, aproximadamente, meio ano. A questão que parece ter sido abandonada é a fidelidade — a princípio, a um partido, e, por consequência, às ideias que são defendidas nele. A genial (e o termo pode ser aplicado tanto de forma positiva quanto negativa) criação de Gilberto Kassab, o Partido Social Democrático (PSD), é o maior exemplo de que legendas podem se adaptar a quaisquer interesses. Em especial, àquilo que interessa a alguém cujo objetivo é ter carreira política. Por ter surgido de um político experiente e hábil articulador, o PSD serve, com mais sucesso do que outras legendas, de abrigo para quem não precisa se comprometer com pontos de vista sobre nada. Nasceu, como dizia Kassab, sem ser de esquerda, de direita nem de centro, mas para a frente. Não quer dizer que todos os seus filiados atuais, antigos e futuros sejam adeptos da indefinição ou da obscuridade. Porém, essa legenda é dotada de genes que lhe permitem aderir a todo projeto político disponível em níveis federal, estadual e municipal sem culpa nem exigências de que seja coerente. Afinal, não faria sentido que o PT se unisse ao PL em busca de governismo ou oposicionismo. Na Câmara de Santos, é assim: as duas siglas se opõem à Administração; mas, ainda que convivam civilizadamente em seu objetivo comum, demarcam território em temas específicos e, neles, se dividem. Quando é, no entanto, o PSD que exerce um papel já desempenhado pelo extinto PTB e, depois, pelo MDB — o de integrar governos de linhas dominantes variadas —, não há estranheza. Hoje, um prefeito paulista que está no PSD pode muito bem se entender com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É por causa disso que o PSD se transformou, em 2024, na agremiação que mais elegeu prefeitos no Brasil (885) e na terceira que mais fez vereadores (6.624, atrás de MDB, com 8.113, e PP, com 6.953; os dois últimos, por curiosidade histórica, são os sucessores diretos dos dois partidos que havia em quase todo o período ditatorial, o oposicionista MDB e a governista Arena, sigla de Aliança Renovadora Nacional). Neste ano, a batalha é para conseguir o maior número de vagas na Câmara Federal. Isso garantirá mais dinheiro para custeio de partidos e para a campanha municipal de 2028. E, se a quantidade de eleitos for pequena ou em poucos estados, haverá partidos que continuarão a existir formalmente, mas sem direito a verba pública nem a aparecer na televisão. Em 1982, nos anos finais da ditadura e para evitar perder poder, o Governo obrigou os eleitores a que todos os seus escolhidos fossem da mesma sigla. Se escolhessem um candidato de uma sigla e outro de uma diferente, o voto seria anulado. Na época, algo espúrio, e só havia cinco partidos. Hoje, com 30 siglas, talvez se levassem líderes políticos e cidadãos a delimitar partidos por ideias.