[[legacy_image_257207]] Oposicionistas fazem barulho e espuma. Situacionistas defenderão, até, o indefensável. O juízo que se faz de Governo e Congresso não pode ser baseado no que se planta em redes sociais, tanto pelos personagens do teatro político quanto por comentaristas de internet cujo cérebro deu lugar ao fígado. Entre a versão de um, a versão de outro e o que aconteceu mesmo, há diferenças e nuances que jamais serão esclarecidas, a depender dos que atacam e dos que se defendem. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Portanto, eram de se esperar pedidos de impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por seus detratores. Quando o PT era oposição, fez o mesmo com Fernando Henrique Cardoso o tempo todo. Como nada é igual, criticava-se FHC pela ideia de privatizar telecomunicações e jazidas a preços módicos, pela reforma previdenciária que começou a condenar os mais pobres a trabalhar até perto da morte, por uma ‘estabilidade econômica’ na qual salários mal subiam. E agora, por quê? O que não se comenta com o vigor e a crítica devidos é que, dos tipos de inflação — dos preços ao consumidor, do custo da indústria, da correção dos aluguéis, todos aferidos e pesados por institutos de renome —, há um que não se mede oficialmente, mas é o maior de todos e subiu, com destaque, na gestão do então presidente Jair Bolsonaro: o ICCN. Não existe no papel nem faz parte de pesquisas, mas nenhum é mais terrível e nefasto do que o Índice do Custo do Congresso Nacional. O Governo planeja uma reforma tributária? “Ah, para ter votos, queremos tal ministério”, exige um partido. Espera que parlamentares aprovem o arcabouço (que palavra feia; parece calabouço) fiscal no lugar do teto de gastos? “Hum, veja bem, aquela emenda para meu reduto parece ótima”, sugere um congressista. Emitiu uma medida provisória e, agora, precisa de aval do Legislativo? “Pensando bem, aqueles subcargos na subpasta do segundo escalão abrigariam muitos aliados”, cogita outro. O debate do interesse público nunca foi puro, mas jamais deu lugar a um comércio legislativo tão escancarado. Alguém poderia, com métodos científicos, apurar se o tráfico de drogas ou o jogo do bicho, por exemplo, rendem tanto quanto o fisiologismo. Chute: o ICCN é páreo duro. Até o fim da década de 1980 ou o início dos anos 1990, um deputado ou senador flagrado em atitude fisiológica (não a dos banheiros, mas a de se aproveitar do cargo para obter benefícios pessoais ou para aliados) sentia-se constrangido. Hoje, se fala nisso com naturalidade. Mesmo analistas da grande mídia tratam dessa pouca-vergonha como se fosse uma revolução de costumes equivalente a conceder que casais exprimam afeto em público sem serem repreendidos. Afinal, os beijos que se trocam entre governantes e congressistas costumam ser ao estilo de Judas. O povo? Nem traído se pode considerar porque não é levado em conta. E continuará a ser tratado como um detalhe enquanto continuar elegendo, por exemplo, rapazes que usam peruca em plenário para ridicularizar os outros e moças que saem à rua de arma em punho.