[[legacy_image_355611]] Apenas 2% dos cerca de R\$ 480 milhões obtidos por oito prefeituras da Baixada Santista no Novo PAC Seleções, do Governo Federal, servirão para uma iniciativa relacionada a questões climáticas. Trata-se de R\$ 10,5 milhões solicitados por Santos para contenção de encostas na Cidade. Ninguém deve duvidar de que todo o dinheiro restante, bem aplicado, irá para ações fundamentais à vida em nível metropolitano, como habitação, regularização fundiária e transporte. O que se faz de positivo nesses segmentos em um município interfere em outros, e disso se sabe há muito tempo. O porém é que os acontecimentos do clima, que passaram da “emergência” para a realidade, exigem ações já atrasadas. Quase todo ano, aparece um relatório local, nacional ou internacional de aumento do nível dos oceanos. Com mais frequência, tem chovido, deslizado terra e matado gente. Não será apenas com montanhas de dinheiro que se amenizarão avanços aparentemente inevitáveis da natureza. Falta algo, e é difícil entender por que não entra na cabeça de tantos, que deveria começar em casa, se amplia na educação escolar e se pode levar à vizinhança: civilidade. Essa civilidade, essa educação, esse comportamento pelo qual a humanidade poderia justificar seu alegado status de raça pensante parece escoar nas redes de drenagem e no oceano juntamente com o lixo que joga em canais, o papelzinho da bala na calçada, a sujeira do cão não recolhida. É uma situação muito mais difícil de controlar onde serviços básicos não chegam ou são deficientes, como os terrenos de ocupação irregular que se transformaram em bairros tão grandes quanto muitas cidades brasileiras. Neste ponto, investir em moradia popular combina com cuidado climático. No entanto, será enxugar gelo se os lugares hoje tomados em parte por residências insalubres, como os cortiços da região central santista, forem alvo de grandes melhoramentos urbanos e turísticos e não se pensar na possibilidade de que as pessoas ali residentes continuem lá com mais dignidade. Porque é fato que, quando há urbanização voltada para tornar lugares mais atrativos a empresas, visitantes e eventuais novos moradores, quase que automaticamente a especulação imobiliária eleva o custo de terrenos e imóveis a patamares proibitivos a quem já paga caro por um quarto sem janela. Se parte do aumento da receita com impostos esperado pelo Poder Público com a concretização de grandes projetos turísticos for investido nessas necessidades — prevenção de consequências do clima e moradia decente aos mais pobres —, a Baixada retardará o que parece inevitável. Mas, se a prioridade forem maravilhas cosméticas, em vez de obras que governantes costumam adiar porque não aparecem aos olhos do público (drenagem subterrânea, limpeza de galerias), aí é que se correrá o risco de desastres que baquearão o turismo, o comércio, a economia, a sobrevivência. Que o diga o povo do Rio Grande do Sul, hoje chorando seus mortos e sem saber do amanhã, à mercê de governantes que fizeram menos do que deviam.