( Helio Oliveira/TV Tribuna ) É noite na Rua Azevedo Sodré, no Boqueirão. As lojas de roupas e móveis finos baixaram as portas, pelo horário. Uma criança e sua mãe passeiam de mãos dadas pelas calçadas reformadas há pouco tempo, divertem-se com o colorido das faixas de pedestres e sorriem. Repentinamente, alguém, em uma atitude incomum para os que trafegam por aquela via, passa correndo com o que parece ser uma arma em punho. Atrás dele, policiais. Ouvem-se tiros. A criança é atingida. Morre. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Você não leu, viu nem escutou essa notícia em lugar nenhum por uma razão simples: é ficção. Talvez tenha se assustado ao fim do parágrafo, perguntando se alguém próximo teria sido vitimado ou ferido. Pois era esta a intenção: apelar para a sensibilidade das pessoas, a ponto de fazê-las, ao menos, imaginar o que pode ter sentido a mãe de Ryan, de 4 anos, morto por um disparo que, como a Polícia Militar informou, pode ter partido de um policial em perseguição no Morro São Bento. O corpo do menino está sepultado, como parece estar no fundo da terra a possibilidade de que a classe política e os responsáveis pela segurança pública estadual façam mais do que “lamentar profundamente” a perda da vida de uma criança. Há quantas décadas não se ouvem deputados e senadores, até vereadores — que nada têm a ver com isso, pois não tratam de legislação penal —, falarem em “reformar as leis”, “pôr bandidos na cadeia”, que “a polícia prende e a Justiça solta”, em “aumentar as penas” para criminosos? Mas existem coisas que impedem políticos de tomar atitudes severas. Aí vai parte delas: necessidade de palanque eleitoral (resolver um problema dá menos audiência do que prometer que vai dar jeito), incapacidade de entendimento (há quem trate como divergentes o cumprimento de penas e a ressocialização de presos), efeito colateral (a ficha corrida de parte dos congressistas causaria inveja aos suspeitos que as polícias costumam perseguir em morros e favelas). A militarização da vida civil, que certos deputados afirmam desejar, também não adianta nada. Por si só, não melhora ninguém. Uma parcela desses policiais e membros de Forças Armadas que viraram parlamentares está mais alinhada a pessoas de seu espectro ideológico do que a ideias para o cotidiano nacional. No dia seguinte ao homicídio de Ryan, houve políticos locais parabenizando Donald Trump e clamando por Jair Bolsonaro na posse. Nada sobre o menino. Morreram para o que importa Defensores de congressistas “injustiçados pela imprensa” dirão que nada acontece porque o Supremo Tribunal Federal (STF) “se mete em tudo”. Pois ainda bem. Se dependesse de uma fatia da Câmara e do Senado, o País teria muitas leis, não só contra o crime, que contrariam disposições da Constituição Federal. E é o que cabe ao STF fazer: quando algum partido ou o cidadão o procura com uma demanda constitucional, ministros a analisam e decidem. Quem faz as leis não pode agir ferindo a maior lei. Se não age melhor, é por preguiça ou conivência. Crianças morrem por causa disso.