Dos partidos atuais, o PT é o maior dos sobreviventes de uma época na qual a palavra e o convencimento eram os métodos para disputar e vencer eleições. Tal sistema dava resultado, pois era o tempo de partidos com ideologias claras. Por ter conseguido chegar à Presidência, o PT parece ter se acomodado. Não percebeu o egoísmo de muita gente: quer ter e, quando consegue, não admite que o outro também tenha porque, se for igualmente bem-sucedido, ‘perde-se’ a graça da conquista. Haveria como mostrar ao público que, quanto mais pessoas vivem em bem-estar social, menores são a tendência à criminalidade e à corrupção (não as que ocorrem na política, mas no cotidiano) e mais satisfação lhes dariam o estudo e o trabalho. Mas o PT não encontrou formas adequadas de expor como seus governos agiram. Parece nem sequer tê-las procurado, embasado na mítica figura de Lula e, regionalmente, em petistas históricos locais. Não se diz nem se poderia afirmar que os governos petistas foram ideais, muito menos que não houve corrupção neles. O que se afirma é que adversários ruins e muito mais desonestos têm sido comunicadores mais eficazes. Têm vencido pelo discurso. Parece inexplicável que uma jovem de 23 anos, de formação escolar incompleta e sem histórico profissional, tenha sido eleita deputada estadual com discursos que negam feminicídios, tentam justificar a violência masculina como questão de índole e classificam como incapazes cotistas em políticas sociais de educação e trabalho. Porém, ela sabe se comunicar com os instrumentos de hoje. Bateu recordes nas urnas. Em redes sociais, a força do discurso e o vigor de quem se expressa fazem mais efeito do que a tentativa de convencer com argumentos. Imagem, cor, falatório, efeitos especiais substituem a racionalidade. A lógica é dispensável, quando não inútil. O sucesso dessas táticas demonstra outro ponto, difícil de admitir quando se trata de fazer uma autocrítica: estão lá, adormecidos no inconsciente humano, o medo e a ignorância do que é diferente ou incompreendido, o preconceito aprendido por gerações, a inveja tida do conhecimento. Em contraponto, também por seu bom trabalho de comunicação, o PSOL cresce e poderá, com o tempo, tomar o lugar do PT como força mais relevante à esquerda, ainda que também resvale no extremismo pela insistência com que defende suas pautas — mais justas que as do PL pelo fato de que este é um partido hipócrita, mas ainda assim com um radicalismo no PSOL que ainda soa incômodo até mesmo em parte da esquerda. O jornalismo e os jornalistas também não parecemos ter achado um caminho, e justamente em nossa área de atuação, para mostrar fatos sem parecermos agressivos e mal-intencionados. Como falar a quem não quer ouvir? Democracia dá trabalho. Depois de um histórico brasileiro tão longo e doloroso, não se poderia imaginar que estivesse em risco de ser arruinada por indivíduos que nunca deram um dia de suor a ninguém e desejam que trabalhemos ainda mais para sustentar seus privilégios.