Mesmo quem acompanha política não só no período eleitoral foi afetado por uma ideia enganosa: a de que quem exerce mandato está preso pelas convicções do partido ao qual é filiado. O erro está no fato de que, ao se sobrepor a imagem do indivíduo aos conceitos das siglas a que os candidatos são ligados, se deixou de lado a razão de ser das agremiações. Esse motivo se chama ideologia, um conjunto de conceitos que liga pessoas a interesses comuns. “Tem político que não age porque o partido não deixa”, me disse, na semana passada, um motorista de aplicativo incomodado com a polarização (que sempre houve, mas se exacerbou) e preocupado com o que será do País pós-Lula e pós-Bolsonaros. De novo, a questão não são as supostas amarras impostas pelos partidos. Na teoria, quem se filia uma legenda deve saber qual modo ela tem de ver o mundo onde está e que soluções idealiza para problemas. A deturpação do pensamento sobre pessoas e partidos se dá por responsabilidade de parte do eleitorado. Ele poderia mudar esse cenário caso fosse politicamente orientado a entender que a finalidade dos partidos é reunir quem pensa de maneira semelhante, mas com brechas para se discutirem internamente questões que justificam a existência deles. Mas são muitos os eleitores que pensam mais em si do que no coletivo, e os partidos, para ter votos, embarcam nessa canoa. Restaram pouquíssimos partidos ideológicos. A quase totalidade dos 30 registrados na Justiça Eleitoral é um clube onde qualquer um entra, ainda mais se for metido a influenciador e, hoje em dia, cheio de seguidores em redes sociais e publicadores de vídeos com música de fundo e efeitos especiais impressionantes. Os raros que defendem seus pontos de vista sem ceder ainda não tiveram votos suficientes para chegar à fase do confronto entre o senso crítico e a busca pela reeleição. E há os grandes partidos brasileiros que assim permanecem não por terem atendido anseios populares, mas por notar que só cresceriam caso se aliassem a correntes teoricamente contrárias às suas. O PSDB surgiu como partido de centro-esquerda e chegou à Presidência após se juntar ao PFL, uma dissidência do PDS, que nasceu da Arena, partido governista na ditadura. O PT também conquistou o Governo ao escolher como vice um industrial do PL, um partido sempre de direita. Existe também o exemplo do MDB, nascido na época em que só dois partidos conseguiam existir e que juntou todos os opositores do regime militar (não só da esquerda, mas também conservadores e direitistas que não admitiam repressão e violência oficiais, inclusive com cassação de mandatos sem direito de defesa). Hoje, emedebistas estão abraçados a defensores de seus algozes do passado. Por fim, o PSD, Partido Social Democrático, que poderia ser o Partido Sem Definição, pois aceita todos. Permitir que pessoas se candidatem sem precisar de filiação é uma ideia antiga, mas que não vinga por interesses partidários e porque não se saberia direito o que elas pensam. E o eleitor, sabe o que quer?