Quem só desvaloriza o Brasil, e nisso usa o fígado no lugar do cérebro, deveria fazer esforço para assimilar uma possibilidade: a de que a altivez de um País, em contraste com a subserviência desprezada por quem pretende impor vontades, tenha sido duplamente salvadora — para os brasileiros e para cidadãos dos Estados Unidos. É uma história que começou a ser escrita no primeiro semestre do ano passado, com a aplicação do tarifaço a boa parte do que exportamos. Recorra a quem quiser entre os opositores do Governo Federal, do governador a pré-candidatos à Presidência, para saber o que eles disseram logo que se despejaram tarifas injustificadas aos produtos nacionais enviados aos norte-americanos. Para economia de tempo, podem-se resumir as respostas no sentido de que o Brasil, ao saber da notícia, deveria procurar os Estados Unidos em busca de termos que amenizassem os efeitos da medida, e teria de fazê-lo o quanto antes. A reação brasileira teve um componente racional, o de evitar o desespero sem antes avaliar saídas possíveis. Uma delas, que compensou as perdas comerciais com os Estados Unidos, foi a diversificação da oferta de produtos a outros países, como a China, e blocos políticos e comerciais, a exemplo da União Europeia. O outro elemento foi ideológico, também positivo: ideologia são pensamentos que norteiam ações. Em vez de um pedido de “perdão”, cobraram-se esclarecimentos. Ao solicitar explicações e, ao mesmo tempo, preparar tanto reações quanto a busca por novos clientes externos para suas mercadorias, o Brasil se apresentou como interlocutor respeitável, não frouxo. Na última semana mesmo, ciente da fuga do candidato derrotado Flávio Bolsonaro para seu país, o presidente Donald Trump apelou à retórica que se esperava ao criticar o resultado eleitoral, mas afirmou também, mais de uma vez, que “gosto” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trump é um político e, como todo agente dessa ‘profissão’, anda no fio da navalha. Mesmo o que se julga mais poderoso sabe que tem compromissos a cumprir e contas a acertar. O dirigente dos Estados Unidos acaba de entrar na fase do acerto de contas, em face de uma ampla e incontestável derrota nas eleições de meio de mandato para deputados, senadores e governadores. Terá uma maioria de oposição para enfrentar — não há, na política desse país, um ‘centrão’ para toda obra. Exemplos como o das eleições brasileiras, em que o resultado final para a Presidência pode ser tido como surpreendente e inesperado tanto para quem o desejava quanto para quem o repudia, servem de parâmetro para fora. É claro que os problemas norte-americanos internos, entre os quais iniciar guerras intermináveis que em nada melhoram a vida do cidadão financiador dessas aventuras e lhe aumentam o custo de vida, são decisivos. Mas, com influências, estimula-se a coragem de reagir. Como cada qual tem seus problemas — tanto os Estados Unidos quanto os irmãos Bolsonaro por lá —, que o Brasil cuide, com autonomia, dos seus. Pacificação é isso.