[[legacy_image_260197]] Empresário que inaugurou a televisão no País, Assis Chateaubriand dizia, segundo o jornalista Samuel Wainer, não haver nada melhor do que uma empresa endividada. No caso dele, porque seu conglomerado de mídia tinha o poder de erguer e derrubar governos dos quais exigia que lhes dessem empréstimos. Se cobrados, iriam à falência. Se falissem, não pagariam nem perto do que devem. Então, o jeito era emprestar mais a elas e aguentar o calote. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Comparando muito mal, mas comparando, assim ocorre com os Estados Unidos. É a nação com a maior dívida no mundo. Conforme dados de janeiro, eram US\$ 31,4 trilhões a pagar para sabe-se lá quantos credores, e o governo pedia autorização ao Congresso, politicamente dividido, para tomar mais dinheiro. Esse montante representa 16 anos de toda a riqueza produzida no Brasil em 2022: o Produto Interno Brasileiro (PIB) daqui somou US\$ 1,92 trilhão. Desde fins da Segunda Guerra Mundial, o dólar embasa as transações internacionais. Arrebentada pelo combate ao nazismo, a Europa perdeu pujança econômica. O Reino Unido, cuja libra esterlina embasava as transações internacionais, não supria sua demanda por produtos. Fabricando armas, mas longe do local das batalhas, a indústria norte-americana crescia. Para comprar dela, esta exigia dólar. E se o dólar perdesse valor? E se as dívidas dos EUA fossem convertidas para moedas que se tornassem mais fortes? O euro não é alternativa a esse domínio porque a União Europeia é desunida. O Reino Unido, também fragmentado por países que querem deixá-lo, saiu do bloco jamais tendo aderido ao euro e, agora, sob arrependimento, como diz sondagem de novembro do YouGov, instituto de pesquisas local. Ainda não há país ou grupo de nações capaz de encarar o poderio financeiro norte-americano. Mas este passa por crises, e a falta de peso para equilibrar os pratos da balança pode estragá-la. A China? Também está com o pé no freio. Pois está em solo chinês o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não é ele quem vai resolver o mapa-múndi do dinheiro nem definir qual moeda valerá mais. Contudo, expôs ideias ontem, na posse da ex-presidente Dilma Rousseff no comando do NDB, sigla que define o banco do Brics — conjunto de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul: 1) Fazer negócios nas próprias moedas; 2) Uma moeda do Brics, para não se “correr atrás de dólar para exportar”. Uma questão é que falta ao Brasil uma indústria tão competitiva quanto as de China e Índia, por exemplo. Outro problema são as taxas de juros brasileiras. Elas estimulam quem tem muito a viver de renda. Se estes investissem em produção, a riqueza estaria distribuída também aos que trabalhassem para produzi-la e poderiam consumir outras mercadorias. Todos dependeriam menos do Estado, que ganharia margem para aplicar esse aumento de receita em bem-estar generalizado. Uma terceira dificuldade é o costume de entregar o essencial ao privado. Em São Paulo, até a água, a mais valiosa das moedas, se pretende deixar para particulares.