(FreePik) Políticos acreditam que a vida em sociedade será o paraíso terrestre se for construída com projetos de lei. Isso, para os bem-intencionados quanto ao bem-estar de pessoas, animais e da natureza. Porque os atos de deputados e vereadores mostram uma classe reativa: algo acontece, sai na mídia, causa espanto geral; desses três elementos, nasce outro, que nada mais é do que um conjunto de artigos, parágrafos e incisos cuja votação ocorrerá muito depois de a comoção popular ter passado. Não é que o Poder Legislativo (entre suas tarefas, a de propor leis) deva deixar fatos graves passarem e ser insensível a eles. A cobrança é para que não esperem desgraças ocorrerem, porque, num mundo ideal, se deseja de políticos que cheguem aos parlamentos por força do conhecimento da realidade. Os perigos já existem, e bons representantes estarão prontos a sugerir algo pelo bem comum antes que os riscos descambem para tragédias. Ou para que se puna, logo e com rigor, quem as comete. Mas o eleitor também entra no espetáculo. Segue políticos em redes sociais, como se isso fosse melhor do que conhecer suas ideias, analisá-las e cobrá-los com frequência. E, nesses perfis, se satisfaz com um vídeo curto, uma frase de efeito sobre uma foto de um político com expressão pensativa, uma ilustração feita com inteligência artificial. Daí, deixa seu comentário: “É isso aí, deputado!”, “Para cima, vereador!”. Até assessores comentam, para engordar a caixa de respostas. O paraíso dos projetos também está aberto a prefeitos, a governadores, ao presidente. Assinar um documento e veicular o ato na internet são vendidos ao público como um “agora vai”, um remédio para o que faltava regulamentar em meio a dezenas de milhares de leis que não passam de letra morta por absoluto descumprimento, decorrente de uma ausência de fiscalização que vem de uma leniência que alguns chamam de “bom senso” (“Multar por quê? É só um papelzinho no chão...”). Todo esse engano é misturado a outro: políticos e seus gabinetes tentam convencer as pessoas de que político ativo é aquele que está falando em, e postando freneticamente sobre, Banco Master, Daniel Vorcaro, impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, o respingo das denúncias em gente de todas as ideologias — ainda que a honestidade obrigue a algo que eles não farão, ao se explicar que atinge mais os de direita que os de esquerda; mas o público vê o que quer, não o que é. Apostando nos desejos de seu eleitorado em potencial, políticos guardarão o cabide do uniforme de super-herói e vestirão a capa colorida e enganosa dos salvadores da Pátria nestes próximos meses de disputa eleitoral. Sem ir a fundo em nenhuma questão relevante, sem desejar sinceramente que se resolvam problemas (sem males, o que prometer?), sem capacidade mental nem moral para elaborar uma ideia relevante de fato para corrigir o estrutural defeito brasileiro: o de ter o Estado como fonte de prestígio e riqueza para si. Democracia não se oferece, se faz. E não só ao depositar seu voto.