(Alexsander Ferraz/AT) Política não é troca de favores, desvio de dinheiro público, defesa de interesses próprios. Essa é a deturpação da atividade política e, por hoje, não será assunto neste espaço. O que se vai falar é da solidariedade, da humanidade, da gentileza entre seres humanos que fazem política e que podem, até, estar em caminhos diferentes em termos partidários e ideológicos. A doença que acomete o prefeito Rogério Santos (Republicanos) tornou público o que de bom já existe entre políticos, da mesma forma que há com jornalistas de meios de comunicação diferentes ou operários de empresas concorrentes: a boa convivência entre quem, com sinceridade, carrega valores de respeito e consideração pelo outro. Na sessão de terça-feira da Câmara de Santos, dois vereadores oposicionistas protagonizaram momentos noticiados na coluna Dia a Dia de quarta e que faz bem lembrar. Marcos Caseiro (PT), adversário político do chefe do Executivo santista, foi o mais efusivo e visivelmente emocionado. Ele recordou, com sentimento, a máxima de que os dois são adversários, mas não, inimigos. Nessa lembrança, Caseiro pôs à disposição do prefeito, caso precise, seus préstimos pessoais e profissionais, dentro de seu alcance, reforçando a seu ex-aluno em um mestrado em Saúde Coletiva que “ele sabe onde me encontrar”. É o ato de deixar a própria porta para bater e entrar, não em rede social, mas na vida real, coisa em desuso nas relações pessoais. Allison Sales (PL) se lembrou justamente disso: falava, acerca do prefeito, em um “ser humano”, para quem se deve desejar a cura dos males. Não tem formação médica, mas ofereceu ao chefe do Executivo algo muito valioso a quem tem fé. Disse ter escrito o nome de Rogério Santos em um papel e posto essa espécie de bilhete aos pés de uma imagem de Nossa Senhora que mantém em uma sala. Pedir, tanto à medicina quanto aos céus, que se cuide do bem de uma pessoa é sinal de bondade. As divergências do cotidiano, eventuais exageros nos gestos e nas palavras, a caça ao voto e à mente do eleitorado, todas essas coisas são secundárias quando uma situação mais grave, de sobrevivência, se impõe. E é nela que se revelam atitudes. Até mesmo desejar o mal, mas ficar quieto, é positivo numa hora como essa. Se alguém que lê este texto estranha o relativo abandono da política ‘dura’ nele, deve ponderar que, sim, a atividade político-partidária é feita de gente eventualmente aproveitadora e asquerosa, mas tem, de maneira geral, pessoas que não se furtam a estender a mão a outras de seu meio em sinceras situações de perigo à vida. Os maus parecem dominantes, pois o mal é mais ruidoso, e o bem, quando feito de coração, é discreto. Há duas máximas cristãs nos episódios da Câmara e que também estão presentes entre os que professam qualquer outra fé ou nenhuma: querer tanto o bem alheio quanto o seu próprio e rezar também pelos “inimigos”. Saiba que, nos bastidores, políticos conversam e brincam. Alivia a jornada e, entre os bons, fortalece para a convergência pelo bem público.