(Unsplash) Existem assuntos que costumo guardar para o momento certo. O futebol foi um deles. Isso porque, no Brasil, ele nunca tenha sido apenas um esporte. É memória, identidade, esperança e uma das poucas linguagens capazes de unir pessoas que pensam de maneira diferente. Por isso, não me parece haver ocasião mais adequada para escrever sobre o tema do que justamente o dia da estreia da seleção brasileira em mais uma Copa do Mundo. Minha primeira lembrança de um Mundial remonta a 1986. Eu tinha apenas cinco anos e não compreendia toda a dimensão daquele evento. As recordações mais nítidas surgem quatro anos depois, na Copa de 1990, quando experimentei pela primeira vez a mistura de expectativa e frustração provocada pela eliminação diante da Argentina de Maradona e Caniggia. De lá para cá, acompanhei conquistas, derrotas e capítulos inesquecíveis da história do futebol brasileiro. Vivi os títulos de 1994 e 2002, sofri com o vice-campeonato de 1998, testemunhei o traumático 7 a 1 e, agora, observo uma geração inteira que cresceu sem ver o Brasil levantar a taça. Recentemente, durante uma aula na faculdade, procurei aliviar por alguns instantes o peso natural dos temas jurídicos que discutíamos. Comentei sobre a proximidade da Copa e lancei uma pergunta simples aos alunos: “Quem aqui já viu o Brasil ser campeão do mundo?”. A resposta veio em forma de silêncio. Nenhuma mão se levantou. Todos aqueles jovens nasceram depois da conquista de 2002. Confesso que aquele instante me impressionou mais do que eu imaginava. A passagem do tempo costuma ser percebida em detalhes aparentemente banais, e aquele foi um deles. Ao chegar em casa, a reflexão ganhou continuidade. Minha filha Laura perguntou se eu acreditava que o Brasil conquistaria a Copa. A pergunta era simples, mas carregava algo maior. Percebi que ela pertence justamente a essa geração que ainda não viveu a experiência de ver a seleção campeã. Talvez por isso eu tenha respondido com mais emoção do que pretendia. Não porque a vitória seja garantida, mas porque algumas experiências merecem ser compartilhadas. Muitos enxergam a Copa apenas como futebol. Respeito quem pensa assim, mas nunca consegui vê-la dessa forma. O que sempre me encantou foi a sensação de pertencimento que ela produz. Durante algumas semanas, pessoas de diferentes origens, convicções e trajetórias passam a torcer pelo mesmo resultado. Em um país frequentemente dividido por disputas de toda natureza, esse sentimento possui um valor que vai muito além das quatro linhas. Como advogado criminalista, estou habituado a lidar diariamente com conflitos. Como professor, convivo com debates intensos e visões divergentes. Exatamente por isso valorizo tanto os raros momentos em que encontramos algo capaz de nos aproximar. A Copa do Mundo sempre exerceu um pouco desse papel. Não resolve os problemas nacionais, não elimina diferenças e tampouco transforma a realidade. Mas nos recorda que ainda existem espaços de celebração compartilhada. Também penso nos amigos, familiares e alunos que jamais experimentaram a alegria de ver o Brasil campeão do mundo. Gostaria que tivessem essa oportunidade. E gostaria, igualmente, que aqueles que já viveram essa emoção se permitissem recordar o quanto ela foi especial. Não por causa de um troféu apenas, mas pela sensação de comunhão que o acompanha. Hoje a bola vai rolar. O resultado ninguém conhece. O futebol, felizmente, continua imune às nossas certezas. Mas, independentemente do que acontecer ao longo desta Copa, continuo acreditando que existem momentos em que vale a pena torcer juntos. Em tempos marcados por tantas divisões, essa é certamente uma das melhores lições que o futebol ainda pode nos oferecer.