(Matheus Tagé/Arquivo AT) Existem telefonemas que um advogado jamais esquece. Alguns comunicam derrotas difíceis de explicar. Outros encerram meses — às vezes anos — de trabalho silencioso, ansiedade e expectativa. Recentemente, tive a felicidade de fazer uma dessas ligações. Do outro lado da linha estavam os familiares de um cliente preso que, após uma decisão judicial favorável, finalmente voltaria para casa. Durante alguns segundos, ninguém falou. O silêncio dizia muito mais do que qualquer palavra. Ao longo da minha carreira acostumei-me a conviver com uma realidade pouco conhecida por quem observa o processo apenas pelos noticiários. Quando alguém é privado da liberdade, raramente sofre sozinho. A prisão alcança pais, mães, filhos, cônjuges e irmãos. A rotina da família inteira se transforma. Multiplicam-se as viagens aos presídios, as horas de espera, as visitas, as despesas inesperadas e, sobretudo, a angústia de quem vive contando os dias até uma boa notícia. Nem todas essas histórias envolvem inocentes, e isso precisa ser dito com honestidade. A responsabilização penal é parte indispensável da Justiça. Mas também existem situações em que a prisão se revela excessiva, desnecessária ou simplesmente incompatível com aquilo que a lei determina. É justamente para esses casos que existe a advocacia criminal. Defender direitos nunca significou defender erros. Significa garantir que a lei seja aplicada corretamente. Quando telefonei para comunicar a decisão, ouvi primeiro o choro. Depois vieram as palavras entrecortadas e, por fim, um agradecimento que não era dirigido apenas a mim. A mãe daquele rapaz repetia, emocionada: "Graças a Deus". Confesso que permaneci alguns instantes em silêncio. Não havia muito a acrescentar. Naquele momento, compreendi que, para aquela família, meses de sofrimento começavam a dar lugar a uma nova esperança. Sou um homem de fé. Respeito profundamente quem não compartilha dessa convicção, mas nunca consegui ignorar que, em muitos momentos da vida, a esperança das pessoas encontra abrigo justamente naquilo que elas acreditam estar além de si mesmas. Nos corredores dos fóruns e nas filas dos presídios, já vi mães segurando cópias de processos em uma mão e terços na outra. Já encontrei familiares que, sem qualquer garantia de êxito, insistiam em acreditar que dias melhores chegariam. E, independentemente da religião de cada um, aprendi a respeitar profundamente essa força interior. Naturalmente, decisões judiciais não acontecem por acaso. Elas são fruto do trabalho dos magistrados, da atuação do Ministério Público, da dedicação da advocacia, dos servidores e de todos aqueles que integram o sistema de Justiça. Cada um exerce uma função indispensável. Ainda assim, seria injusto ignorar que, para muitas famílias, o desfecho favorável também representa a confirmação de uma esperança em algo maior que jamais abandonaram. Exatamente por isso que considero a advocacia uma profissão tão singular. Nosso trabalho consiste em estudar processos, construir teses, enfrentar audiências, sustentar recursos e defender direitos. Todavia, em alguns dias, percebemos que fazemos muito mais do que isso. Levamos notícias capazes de transformar vidas. Devolvemos filhos aos pais, pais aos filhos e maridos às suas esposas. Nenhuma decisão judicial apaga o sofrimento vivido até ali, mas algumas conseguem devolver às famílias aquilo que elas mais desejavam: a possibilidade de recomeçar. Não sei explicar todas as formas pelas quais a esperança se manifesta. Sei apenas que ela continua presente, mesmo nos lugares onde a dor parece falar mais alto. E é essa a maior lição que aprendi depois de tantos anos na advocacia criminal: antes mesmo da liberdade abrir os portões de um presídio, ela costuma permanecer viva dentro do coração daqueles que nunca deixaram de esperar.