Amanhã, domingo, o Brasil voltará às urnas para escolher seu próximo presidente. A disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula chega ao segundo turno em um ambiente de polarização que ultrapassa os limites do debate político. Amizades se desfazem, famílias evitam determinados assuntos à mesa e pessoas que pensam de maneira diferente passam a se olhar como adversárias. Em alguns casos, a divergência basta para que alguém seja excluído, ofendido ou tratado como inimigo. É uma pena que tenhamos chegado a esse ponto. Sempre gostei de política. Fui representante de classe na escola, participei do Centro Acadêmico durante a faculdade de Direito e, hoje, permaneço envolvido na vida institucional, no Conselho Estadual da OAB/SP. Acredito na política como instrumento de transformação, na força das ideias e na possibilidade de melhorar a vida das pessoas por meio da participação. Mas não é propriamente sobre cargos, partidos ou disputas que quero falar. É sobre a campanha, as conversas, os encontros e a maneira como a política entrou na minha vida. A primeira eleição presidencial de que me lembro foi a de 1989. Eu era criança, mas a política já despertava minha curiosidade. Naquela época, havia uma atividade que eu e meus amigos levávamos muito a sério: nossa própria pesquisa eleitoral. Íamos para o Colégio Santista na perua do Tio Zé. Pelo caminho, observávamos os carros, contávamos os adesivos dos candidatos e anotávamos os resultados. Maluf, Collor, Brizola, Lula, Covas e tantos outros disputavam nossa atenção. Cada adesivo entrava na conta. Quando chegávamos à escola, somávamos tudo para descobrir quem venceria a eleição. Era uma diversão. Não sei se nossos números chegavam perto do resultado das urnas, mas me lembro da alegria com que fazíamos aquela brincadeira. A política estava ali, na conversa entre amigos, na curiosidade de uma criança e na liberdade de discordar sem ameaçar uma amizade. Ao longo da vida, pedir votos também foi uma forma de encontrar pessoas. Fiz isso na escola, na universidade e nos escritórios de colegas advogados. Sempre gostei dessas conversas, que tantas vezes terminavam em lembranças e risadas. Revi amigos queridos, fiz novas amizades e aprendi que a política, quando exercida com espírito público, aproxima pessoas. A disputa passava; os vínculos permaneciam. Hoje, diante de tanta hostilidade, fico pensando no que aconteceu com aquela disposição para conversar. Se pararmos para refletir, existe algo que une eleitores de posições diferentes: todos queremos, ao menos em princípio, um país melhor. Queremos educação de qualidade, saúde, segurança, oportunidades de trabalho e uma economia que permita às famílias viver com dignidade. Divergimos sobre os caminhos, as prioridades e as pessoas que consideramos capazes de conduzir esse processo. O problema começa quando deixamos de aceitar que o outro também pode desejar o bem do Brasil, ainda que pense de maneira diferente da nossa. Há uma contradição dolorosa nesse cenário. Dizemos querer o progresso do país, mas, muitas vezes, só conseguimos imaginá-lo se acontecer à nossa maneira. O adversário não pode ter razão em nada; reconhecer um acerto do outro lado parece uma derrota pessoal. Assim, aquilo que deveria ser uma disputa de projetos se transforma numa guerra de identidades, em que mudar de ideia é sinal de fraqueza e ouvir o outro passou a ser quase uma concessão. O país fica em segundo plano, enquanto cada grupo se convence de que somente o seu caminho merece existir. Quando penso na eleição de 1989, lembro com carinho dos adesivos nos carros e das nossas contas na perua do Tio Zé. Naquela época, eu não imaginava que aquela brincadeira acompanharia minha vida por tantos anos, nem que a política continuaria sendo, para mim, uma forma de encontrar pessoas, trocar ideias e acreditar na mudança. Amanhã, faremos nossas escolhas. Que saibamos defendê-las com convicção, sem perder o respeito por quem pensa diferente. Afinal, por caminhos distintos, somos todos parte da mesma história e desejamos, cada um à sua maneira, um futuro melhor para o Brasil.