A Organização Mundial da Saúde fez soar um alerta que merece atenção. A solidão deixou de ser apenas uma sensação experimentada por algumas pessoas e passou a ser tratada como uma epidemia mundial. Um em cada quatro jovens e idosos convive hoje com um sentimento profundo de isolamento. A preocupação é tamanha que foi criada uma Comissão Internacional para Conexão Social, destinada a enfrentar um problema que já produz consequências na saúde física, mental e emocional de milhões de pessoas. Confesso que a notícia me levou de volta à infância. Sou filho único e, durante alguns anos, fui uma criança bastante tímida. No recreio da escola, não era raro fazer o lanche sozinho. Em outras ocasiões, preferia o silêncio da biblioteca aos jogos no pátio. Enquanto muitos corriam de um lado para o outro, eu passava o tempo folheando os gibis disponíveis nas estantes. Em casa, a cena se repetia. Muitas brincadeiras aconteciam sem companhia, inventadas por quem precisava preencher o tempo com a própria imaginação. Naquele momento da vida, evidentemente, eu não compreendia o significado daquela rotina. Crianças apenas vivem. Não costumam analisar a própria existência. Somente muitos anos depois percebi que aqueles intervalos de silêncio estavam, de alguma maneira, moldando o adulto que eu me tornaria. A vida costuma trabalhar em silêncio. Enquanto imaginamos que nada acontece, ela vai construindo parte de quem seremos. Hoje, paradoxalmente, minha profissão é feita de palavras e de pessoas. Atuo em tribunais, participo de júris, ministro aulas, realizo palestras e, semanalmente, converso com milhares de leitores por meio desta coluna. Grande parte da minha rotina acontece publicamente. Quem observa apenas esse cenário dificilmente imagina que boa parte dessa rotina tenha começado justamente na companhia da solidão de um menino que descobriu, muito cedo, o valor de estar consigo mesmo. Naturalmente, não pretendo romantizar a solidão. O alerta da Organização Mundial da Saúde é real e deve ser levado a sério. O isolamento involuntário produz sofrimento, adoece e precisa ser enfrentado. Solidão não é sinônimo de maturidade. Há quem esteja cercado de pessoas e ainda assim se sinta profundamente sozinho. Há também quem encontre, por algum tempo, no recolhimento um espaço de crescimento. São experiências diferentes e seria injusto tratá-las como se fossem a mesma coisa. Observando a vida em perspectiva, chego à conclusão de que nenhum acontecimento atravessa a nossa história sem deixar marcas. As circunstâncias agradáveis ensinam. As difíceis também. A diferença está no uso que fazemos delas. No meu caso, aqueles momentos de silêncio acabaram desenvolvendo o hábito da leitura, da observação e da reflexão. Comigo aconteceu na infância. Com outras pessoas poderá acontecer em fases completamente diferentes da vida. Não existem regras para essas coisas. Uma das maiores habilidades que podemos desenvolver é aprender a conviver com a própria companhia. Quem depende permanentemente do barulho, da aprovação ou da presença dos outros acaba entregando parte da própria paz às circunstâncias. A convivência humana continuará sendo indispensável. O afeto, a amizade e o amor jamais serão substituídos. Ainda assim, existe uma diferença importante entre sentir-se abandonado e saber aproveitar o tempo sozinho. Quando leio a notícia da OMS, penso que combater a solidão não significa apenas aproximar pessoas. Significa, igualmente, ajudá-las a construir relações verdadeiras — inclusive com elas próprias. Afinal, ninguém escolhe todos os acontecimentos da própria vida. Entretanto, todos podemos decidir o que fazer com eles. Algumas das melhores conversas que tive aconteceram diante de muitas pessoas. Outras, curiosamente, ocorreram quando ainda era apenas um menino lendo um gibi, sozinho, na biblioteca da escola