[[legacy_image_218140]] Lembro-me da primeira eleição presidencial que acompanhei, lá do alto dos meus oito anos de idade, no ano de 1989 e pude naquele tempo contemplar os debates entre os candidatos. Fiquei fascinado com o enfrentamento de ideias, discussões no tocante à democracia e sobre rumos do país. Dentro da minha singela experiência de vida acreditei que aqueles homens estavam discursando para “valer” e que o que fora prometido seria colocado em prática para o bem do povo. Infelizmente, a história se encarregou de me ensinar que, na maioria das vezes, as palavras vão com o vento, especialmente, quando estamos diante de uma discussão política. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Apesar dessa dura constatação, sentia um clima de cordialidade entre os eleitores. Naquele tempo, quando os meus pais me levavam para a escola ou mesmo quando estava na perua escolar, contava os adesivos dos candidatos nas ruas e com os amigos fazíamos a nossa própria “enquete”. Sem contar as eleições para representante de classe que eram incentivadas pelos professores e movimentavam os alunos. Fazíamos até campanha. Na faculdade de direito não foi diferente, com o Centro Acadêmico, onde organizamos debates de candidatos a cargos públicos, independentemente da coloração partidária, contando com excelente participação do corpo discente e da sociedade. Alguns anos se passaram e atualmente vivemos tempos que considero mais desafiadores. Amanhã concluiremos o processo eleitoral no Brasil deste ano com a escolha do Governador do Estado e do Presidente da República. Diferentemente do clima experimentado quando da minha infância e juventude, considero que a eleição atual foi a mais beligerante desde a redemocratização. Almoços, jantares, encontros de família, aniversários de amigos, grupos virtuais ou reais, não restou um ambiente sequer que não tenha sido contaminado pela ferocidade da disputa política. Acentuaram-se as divisões sociais, religiosas, regionais, ideológicas. Tolerância passou a ser algo em falta na sociedade brasileira que começou a ser composta por bolhas nas quais as pessoas só falam e ouvem aquilo que concordam. Não se busca mais a distinção entre notícias falsas e verídicas, mas buscar a legitimação daquilo que se acredita. A maioria das pontes que nos uniam enquanto povo foram destruídas e aquelas que sobraram foram bastante avariadas. Precisaremos de muita força de vontade para reconstruirmos os alicerces necessários para um bom convívio. Muitos se perguntam até se essa agressividade passará depois de amanhã. Inclusive, algumas pesquisas afirmam que não é possível mais reatar as relações rompidas, a despeito de quem vença as eleições. Asseguram que o esgarçamento do tecido social imposto pela disputa entre Bolsonaristas e Petistas nos impôs um país dividido. O ódio, a intolerância e a violência tomaram um espaço sem precedentes na vida brasileira tornando bastante difícil a troca de ideias entre pessoas de espectros políticos diferentes. Como será “o dia depois de amanhã”? Apesar dessa questão nos reportar a um filme americano de 2004, trata-se da pergunta que todos nós nos fazemos no instante que lemos esse texto. Não ousaria dizer o que nos espera a partir dali tamanha incerteza que nos ronda. Entretanto, tenho por princípio acreditar que, por mais difíceis que sejam os dias que se apresentarão, apenas nos movimentando no sentido de aparar as arestas sociais e construir canais de diálogo entre pessoas que estão em bolhas diversas é que conseguiremos dar início à construção de uma identidade enquanto povo e atingirmos a paz social tão esperada.