(Foto ilustrativa/ Vanessa Rodrigues/ Arquivo AT) A eleição terminou. Os votos foram contados, as comemorações e as frustrações começaram a dar lugar à rotina, mas permanece uma pergunta: o que faremos com as relações que colocamos em risco durante a disputa? Na semana passada, escrevi sobre a perua do Tio Zé e as brincadeiras que eu e meus amigos fazíamos, contando os adesivos dos candidatos no caminho para a escola. Éramos crianças, mas já nos interessávamos por política. Não imaginava, naquela época, que um dia precisaríamos nos perguntar por que ficou tão difícil discordar sem nos afastarmos. Sempre acreditei na política como instrumento de transformação. Continuo acreditando. É por meio dela que discutimos os rumos do país, escolhemos representantes e decidimos, dentro das regras democráticas, quais caminhos queremos seguir. Não pretendo esconder minhas convicções para agradar a quem pensa diferente de mim. Quero continuar questionando governos, criticando decisões e defendendo as ideias nas quais acredito. O mesmo direito pertence a quem discorda de mim. É justamente essa liberdade que torna o debate necessário. O que me preocupa é a transformação da divergência em hostilidade. Vimos, durante a campanha, episódios de violência, intolerância e perseguição que não ficaram restritos às redes sociais. O que começa numa publicação ofensiva pode chegar à mesa de jantar, ao ambiente de trabalho e às relações que levamos anos para construir. Pessoas passam a ser reduzidas a rótulos, como se a escolha de um candidato resumisse sua história, seu caráter e tudo aquilo que representam. Já não se discute apenas o que alguém pensa; decide-se se pessoa merece ser ouvida, respeitada ou mantida por perto. Não considero que o afeto exija concordância. A amizade não pode depender da coincidência de nossas opiniões, nem exigir que cada palavra seja medida pelo receio de contrariar alguém. Tenho amigos que pensam de maneira muito diferente da minha, e não quero perdê-los por isso. Posso discordar de suas escolhas, criticar suas posições e sustentar as minhas sem deixar de reconhecer a pessoa que existe para além da política. Não confundo divergência com falta de caráter. E espero receber o mesmo tratamento. Isso não significa tolerar tudo ou fingir que as diferenças não importam. Há ideias que precisam ser contestadas, decisões que merecem crítica e condutas que não podem ser aceitas. O debate democrático exige firmeza, mas também exige limites. Uma coisa é enfrentar argumentos; outra, perseguir quem os apresenta. Uma coisa é defender convicções; outra, imaginar que somente nós temos o direito de tê-las. Quando a política nos faz perder a capacidade de enxergar a humanidade de quem está do outro lado, alguma coisa essencial já se perdeu. Aprendi que o Estado Democrático de Direito não se sustenta apenas em leis escritas. Depende de instituições respeitadas, de direitos preservados e de limites que também alcancem aqueles que exercem o poder. Depende, ainda, da compreensão de que ninguém deve ser perseguido por suas convicções e de que nenhum projeto político pode justificar a violação das garantias que protegem a todos. A democracia não é propriedade de um partido, de um governante ou de um grupo. É um patrimônio que precisamos defender, inclusive quando o resultado das urnas contraria nossas preferências. Não quero que as coisas permaneçam assim. Não me basta lamentar a intolerância, assistir ao afastamento de pessoas queridas ou aceitar que a violência se torne parte natural da vida política. Quero reconstruir. Reconstruir pontes, recuperar a disposição para ouvir e devolver às diferenças o lugar que lhes cabe numa sociedade livre. Sei que isso não se resolve com um texto, nem depende de uma única pessoa. Mas toda reconstrução começa quando alguém se recusa a tratar a destruição como destino. A eleição acabou. Nossas convicções permanecem, assim como o direito de defendê-las. Que saibamos fazê-lo sem transformar adversários em inimigos e sem esquecer que, antes de qualquer rótulo político, somos pessoas. A democracia exige mais do que votos: exige respeito, coragem, espírito público e compromisso com a liberdade. É por ela, e pelo país que ainda podemos construir, que sigo disposto a fazer a minha parte. Não quero apenas assistir ao que está acontecendo. Quero reconstruir.