(Vanessa Rodrigues/ AT) Amanhã, o Brasil estará diante das urnas. Serão seis escolhas, entre deputados, senadores, governadores e presidente da República. É um daqueles momentos em que somos lembrados de que, apesar de todas as dificuldades, ainda temos o direito de escolher quem falará em nosso nome e tomará decisões que afetarão nossas vidas pelos próximos anos. Não chego a esta eleição com o mesmo entusiasmo de outros tempos. Tenho escrito, neste espaço, sobre as dificuldades que enfrentamos. A insegurança jurídica, as incertezas, a perda de referências e a sensação de que, muitas vezes, as instituições caminham por um lado enquanto a sociedade segue por outro. Há dias em que a esperança parece uma palavra bonita, mas distante da realidade. E este foi, para muitos brasileiros, um ano difícil de atravessar. Confesso que compreendo quem chega à urna cansado. Não apenas do debate político, mas da própria sensação de que nada muda. São tantos problemas, tantas promessas, tantos conflitos e tantos exemplos ruins que, às vezes, a vontade é simplesmente apertar qualquer botão e ir embora. Como se o resultado já estivesse escrito antes mesmo de começarmos a votar. Foi nesse ambiente de desânimo que me lembrei de outro momento difícil para o povo brasileiro neste ano: a nossa eliminação na Copa do Mundo. O Brasil perdia para a Noruega por 2 a 0, nas oitavas de final, quando Neymar foi para a cobrança de um pênalti. Do outro lado estava o goleiro Ørjan Nyland, que tentava entrar na cabeça do brasileiro. Neymar ouviu a provocação, tomou distância e bateu. Gol. O Brasil perdeu a partida por 2 a 1 e foi eliminado, mas aquela cobrança ficou na memória porque, quando tudo parecia perdido, ele ainda fez aquilo que estava ao seu alcance. A imagem me parece uma boa metáfora para o eleitor brasileiro. Amanhã, diante da urna, teremos também, metaforicamente, um goleiro provocador do outro lado. Pode ser o mau político, a autoridade que esquece os limites do cargo, o mau exemplo que se repete até parecer normal. São aqueles que apostam no nosso cansaço, na nossa descrença e na ideia de que a cidadania se resume a reclamar depois. É justamente aí que o eleitor precisa dizer, como Neymar disse naquele momento: “comigo, não.” Não como um gesto de arrogância, mas como uma afirmação de personalidade. Comigo, não. Não aceito o abuso como normalidade. Não aceito a corrupção como destino. Não aceito o desrespeito às instituições. Não aceito que o poder seja exercido como se pertencesse a quem o ocupa. Há uma lição naquela cobrança de Neymar. O Brasil já estava em situação quase irreversível. O goleiro sabia disso. O jogador também. Ainda assim, ele não bateu o pênalti como quem havia desistido. Concentrou-se, assumiu a responsabilidade e fez o que precisava fazer. Depois, o resultado permaneceu o mesmo. A derrota não desapareceu. Todavia, não apagou a dignidade daquele instante. Creio que é isso que está faltando em alguns momentos da nossa vida pública: menos resignação e mais responsabilidade. Não uma esperança tola, dessas que fecham os olhos para a realidade, mas a disposição de fazer corretamente aquilo que está ao nosso alcance. O cidadão não controla o resultado de uma eleição. Controla, contudo, a seriedade com que escolhe e a maneira como exerce o seu direito. Diante da urna, cada eleitor terá uma responsabilidade que não termina no voto. O Brasil pode estar cansado, mas cansaço não é rendição, nem desesperança pode virar indiferença. Neymar sabia que o jogo estava praticamente perdido, ouviu a provocação, caminhou para a bola e marcou. Na urna, como no campo, é preciso ter coragem para assumir a cobrança e dignidade para não entregar o jogo antes do apito final. Amanhã não teremos a certeza da vitória que desejamos. Teremos algo mais simples e mais importante: a oportunidade de fazer a nossa parte. Com serenidade, consciência, personalidade e honra. Porque há jogos em que o resultado não depende apenas de nós. Mas a maneira como entramos em campo depende. E, mesmo quando a vitória parece distante, há derrotas que começam justamente quando decidimos não lutar. Então, lutemos!