[[legacy_image_249361]] As chuvas ocorridas no último carnaval no litoral de São Paulo chamaram a atenção de toda a sociedade. O número de mortos ainda é incerto e os danos causados à população são inestimáveis. Além de familiares, parentes, amigos, foram levados os sonhos, as conquistas e tudo aquilo que compõe o lar de uma pessoa. São tantas perdas que não é possível traduzir em palavras. As imagens chocantes dos deslizamentos e a falta de informação no tocante às consequências foram estarrecedoras e ainda preocupam. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Em situações duras e difíceis como essa podemos tolerar a ausência de quaisquer aspectos, com exceção de um: a verdade. Não podemos fingir que não vemos ou não sabíamos da possibilidade de eventos dessa natureza ocorrerem, em especial, no litoral norte. Alguns poderão dizer que as chuvas foram fortes e que a chance de tudo isso acontecer se viu aumentada em razão disso. Isso é claro, mas não podemos ignorar que sabíamos que nessa época do ano episódios como esse acontecem e, sim, deveríamos estar melhor preparados para enfrentá-los. Inundações, enchentes e deslizamentos são eventos que acontecem anualmente em toda a nossa região e pouco é feito para minorar os seus efeitos. São tantos aspectos que precisam ser melhorados! O déficit habitacional que empurra as pessoas de menor poder aquisitivo a residirem em áreas de risco e o poder público que, seja por falta de planejamento ou incapacidade genuína, nada fazem. Não devemos mais tolerar que mulheres, homens e crianças morem em espaços sem condições dignas de vida e, igualmente, que as exponham a riscos. As ocupações irresponsáveis das encostas da Mata Atlântica – frise-se que promovidas por pessoas com e sem poder aquisitivo - propiciam o cenário ideal para que ocorram tragédias. Anualmente o noticiário é tomado por fatos similares a esse e as autoridade agem como se estivéssemos diante de uma situação de caso fortuito ou força maior. Não estamos diante de fatos totalmente imprevisíveis ou de fatos previsíveis e inevitáveis. O poder público pode promover ações para evitar e proteger as pessoas nessas regiões, mas, infelizmente, pouco é feito. Além da inação estatal no tocante à promoção de políticas públicas de prevenção, empreendemos alterações nos cursos dos rios, ocupando as margens sem critérios técnicos, impermeabilizamos as cidades sem promover as devidas obras de macrodrenagem – até porque esse tipo de obra não proporciona visibilidade e votos -, sem contar o desrespeito às leis ambientais. Em outras palavras, nos preocupamos com esse tema quando estamos diante do fato consumado e, só voltaremos a tratar desse assunto no ano que vem. É essencial que estejamos atentos aos reais problemas a serem enfrentados numa situação catastrófica como essa. Esse evento não ocorreu no dia em que se deram os deslizamentos. Esses fatos contam com um nascedouro bem anterior. Ele se dá quando viramos as costas para a desigualdade social que eleva ainda mais a desigualdade ambiental, permitindo com que pessoas vivam em áreas de risco e paguem com as suas vidas pela incompetência do Estado. As chuvas virão no ano que vem e não poderemos dizer, mais uma vez, que fomos surpreendidos. Precisamos estar preparados para diminuir os efeitos de eventos extremos como esse. O poder público precisa agir com antecedência e eficiência.