(Alexsander Ferraz/ AT) Há hábitos que atravessam o tempo. Permanecem adormecidos em algum lugar da memória até que um detalhe qualquer — um pacote colorido sobre o balcão de uma banca de jornal, uma conversa entre amigos ou a proximidade de mais uma Copa do Mundo — desperte sentimentos que imaginávamos esquecidos. Estamos novamente diante de um Mundial de futebol e, com ele, retorna também um ritual que parece resistir às pressas do mundo moderno: o álbum de figurinhas. Escrevi sobre esse tema na última Copa. Naquela ocasião, relatava o reencontro com uma tradição da infância e a alegria inesperada que ela havia proporcionado em meio a um período difícil do país. O tempo passou. Mudaram-se os anos, mudaram-se os personagens das seleções, mas algumas inquietações coletivas permaneceram conosco. Continuamos vivendo dias marcados por instabilidade, excesso de informação e certa dificuldade de convivência. Justamente por isso pequenos gestos afetivos tenham adquirido ainda mais valor. Desta vez, entretanto, a experiência ganhou novos contornos. Diferentemente da vez anterior, meu álbum ainda está longe de ser completado. Estou apenas começando essa jornada. E talvez isso torne tudo mais bonito. Há algo de especial nos começos, sobretudo quando eles são compartilhados com quem amamos. Minha parceira de aventuras continua sendo a minha filha Laura, mas agora em posição de protagonismo absoluto nesse processo. Foi curioso perceber como aquela menina que antes acompanhava o pai passou a conduzir boa parte da missão. Laura organiza as repetidas, negocia trocas, aproxima-se de outras crianças e até de adultos com uma naturalidade que apenas a infância consegue preservar. Nos pontos de troca, enquanto muitos permanecem presos aos telefones celulares, ela conversa, sorri, argumenta e celebra cada figurinha conquistada como se estivesse decidindo uma final de campeonato. E, de certo modo, está. Percebo que o álbum jamais foi apenas sobre futebol. As figurinhas funcionam como ponto de encontro entre pessoas que jamais conversariam em circunstâncias comuns. Em tempos nos quais quase tudo acontece atrás de telas, observar crianças trocando cromos, correndo de mesa em mesa e comemorando descobertas simples provoca certa esperança. Não se trata de negar a tecnologia, mas de lembrar que a convivência humana continua insubstituível. Também me chama atenção a capacidade que a Copa possui de suspender, ainda que por instantes, parte das tensões cotidianas. Nas bancas, nos cafés e nos grupos de mensagens, o assunto deixa de ser crise, intolerância ou disputa permanente. Fala-se sobre jogadores, seleções, figurinhas raras e memórias antigas. Parece pouco, mas não é. Há um valor enorme nas pequenas pausas que nos devolvem alguma leveza. Como advogado criminalista, acostumei-me profissionalmente a lidar com conflitos, tensões e histórias difíceis. Certamente por isso esses momentos simples adquiram um significado ainda maior. Aprendi que a vida também se sustenta em pequenas alegrias compartilhadas, em tradições aparentemente singelas e na construção de memórias afetivas que sobreviverão ao tempo. No final das contas, pouco importa quantas figurinhas ainda faltam para completar o álbum. O verdadeiro preenchimento acontece fora das páginas. Está nas conversas, nos encontros inesperados, nas risadas divididas e na felicidade de acompanhar a minha filha descobrindo o encanto das coisas simples. A Copa ainda nem começou. Contudo, de algum modo, a parte mais bonita dela já teve início.