Mais de uma dúzia de aulas em uma semana, uma palestra, três audiências, textos escritos, clientes atendidos, escritório, compromissos e, no meio de tudo isso, a família. Na sexta-feira retrasada, ao terminar a semana, tive uma sensação que já havia sentido: a de que, apesar de tudo, não tinha feito o suficiente. Não era cansaço. Era outra coisa. Uma espécie de cobrança silenciosa que aparece justamente quando acreditamos ter dado o nosso melhor. Tenho a sorte de trabalhar com aquilo que escolhi. Amo a advocacia, a sala de aula, as conversas com os alunos, as discussões com a equipe e até das horas difíceis que certas escolhas profissionais impõem. Falo disso com frequência com meus alunos e também com aqueles que trabalham comigo. Amar o que fazemos, entretanto, não nos torna imunes ao excesso. Às vezes, a paixão pelo trabalho é justamente o que nos faz ultrapassar a medida. No último sábado, fui almoçar em um shopping e, como costumo fazer, fiquei observando as pessoas. Em uma mesa próxima estava um casal aparentemente simples, com uma menina de uns cinco anos. Não havia pressa. Não havia celulares disputando atenção, pelo menos naquele instante. Conversavam, comiam, cuidavam da filha. Havia naquela cena uma tranquilidade que me chamou a atenção. Nada extraordinário acontecia. E talvez fosse justamente essa a beleza. Fiquei algum tempo olhando aquela família e pensei em como a vida contemporânea nos convenceu de que sempre falta alguma coisa. Mais trabalho, mais dinheiro, mais reconhecimento, mais viagens, mais resultados, mais seguidores, mais velocidade. A internet, que deveria aproximar o mundo, muitas vezes nos coloca diante de uma vitrine permanente em que todos parecem estar fazendo mais, conquistando mais e vivendo melhor. É difícil não entrar nessa corrida. Na faculdade, quando converso com os alunos sobre a profissão que escolherão, costumo dizer que ambição não é um defeito. Ela nos move, faz com que estudemos, trabalhemos e busquemos melhorar. O problema começa quando deixamos de saber para onde estamos indo. Há uma diferença entre querer crescer e acreditar que nunca se pode parar. Uma coisa impulsiona. A outra consome. Os gregos antigos já desconfiavam dos excessos. Aristóteles, ao tratar da virtude, falava da busca pelo equilíbrio entre extremos. Não se trata de viver uma vida sem desejos ou de abandonar aquilo que nos move. Trata-se de não permitir que uma parte da existência ocupe todo o espaço. Até aquilo que amamos pode nos fazer mal quando deixa de conviver com o restante da vida. É justamente essa uma das grandes dificuldades do nosso tempo: compreender que fazer mais nem sempre significa viver melhor. Há dias em que trabalhamos muito e ainda sentimos culpa pelo que não conseguimos fazer. Há noites em que estamos em casa, mas a cabeça permanece no trabalho. Há momentos com quem amamos que são interrompidos pela preocupação com aquilo que ainda precisa ser resolvido. E, quando percebemos, estamos sempre chegando a algum lugar, mas raramente estamos presentes onde estamos. Lembrei-me, então, de uma frase que ouvi certa vez de um amigo: rico é aquele que precisa de poucas coisas para viver. Não sei se a frase é originalmente dele, nem pretendo atribuí-la a algum filósofo. Mas ela ficou comigo. Talvez porque riqueza, no sentido mais importante da palavra, tenha menos relação com aquilo que acumulamos e mais com aquilo de que conseguimos prescindir. Naquela sexta-feira, terminei a semana pensando no que havia faltado fazer. No dia seguinte, olhando aquela menina almoçar tranquilamente com os pais, percebi que a pergunta estava errada. Não se trata de fazer tudo, porque ninguém faz, mas de não perder, no meio de tudo aquilo que fazemos, o que realmente importa. A medida de uma vida não está no que conseguimos colocar dentro dela, mas no que fomos capazes de viver. O luxo do nosso tempo pode não ser ter mais, mas precisar de menos — e saber reconhecer quando o que temos já é suficiente.