(Imagem ilustrativa/ Pexels) Minha jornada escolar começou cedo, aos quatro anos de idade. Foram dez anos no Colégio Santista, período que me presenteou com amizades que permanecem até hoje. Quando penso naquela fase, todavia, a primeira lembrança não é propriamente uma sala de aula, uma prova ou um professor. Curiosamente, o que me vem à memória é um objeto muito mais simples: a agenda escolar. Naquela época, ela era item obrigatório da lista de material. Servia para anotar tarefas, datas de provas e compromissos do ano letivo. Eu, porém, resolvi dar outra função àquelas páginas. Escrevia histórias que inventava, registrava acontecimentos do dia, copiava frases que me chamavam atenção e, sem perceber, criava um hábito que jamais me abandonaria. Foi ali, muito antes da faculdade de Direito e da advocacia, que nasceu meu gosto pela escrita. O tempo passou, a tecnologia transformou quase tudo ao nosso redor, mas alguns hábitos permaneceram intactos. Até hoje, uma das primeiras providências que tomo no início de cada ano é comprar uma agenda nova. Continuo preferindo papel à tela do celular. Na cabeceira da minha cama ela está todas as noites. Nela anoto ideias para teses de defesa, trechos de livros e, não raras vezes, pensamentos que aparecem antes mesmo de o dia amanhecer. Aprendi que boas ideias costumam surgir furtivamente. Se não forem registradas imediatamente, desaparecem com a mesma rapidez com que chegaram. Foi justamente diante da minha agenda, há poucos dias, que resolvi fazer um exercício diferente. Passei a escrever os nomes das pessoas que, de alguma forma, mudaram a minha vida. Não me refiro aos meus pais e familiares, cuja importância é evidente. Pensei naquelas pessoas que surgiram ao longo do caminho e elevaram o nível da minha própria existência. Pessoas cuja inteligência me fez estudar mais, cuja maturidade me ensinou a enxergar o mundo com outros olhos, cujo amor me tornou melhor e o exemplo modificou a forma como passei a viver. Quando terminei a lista, havia oito nomes. Confesso que me surpreendi. Não esperava encontrar tantas pessoas que exerceram influência tão profunda na minha trajetória. Evidentemente, esses nomes permanecerão apenas na minha agenda. Você, leitor, ficará com a curiosidade. Tenho certeza, contudo, de que alguns deles reconhecerão estas linhas caso um dia as leiam. Há gratidões que dispensam apresentações. Ao longo da vida aprendi que existe uma diferença importante entre conhecer pessoas e ser transformado por elas. Vivemos cercados por contatos, mensagens e conexões que começam e terminam rapidamente. Raramente, porém, encontramos alguém cuja presença nos obrigue a crescer. São pessoas que nos desafiam intelectualmente, nos inspiram pelo exemplo ou simplesmente tornam nossa caminhada mais leve. Não aparecem com frequência e é justamente por isso que são tão valiosas. Percebi, igualmente, que a vida não é construída apenas pelas decisões que tomamos, mas também pelos encontros que ela nos oferece. Alguns são passageiros; outros permanecem para sempre, ainda que o tempo ou a distância mudem a rotina. Existem pessoas que passam por nós como simples estatística. Outras transformam-se em verdadeiros acontecimentos. Quando isso acontece, a vida deixa de ser uma questão de quantidade e passa a ser de raridade. Coloquei novamente a agenda na cabeceira da cama e pensei que, no fundo, aquela lista não era sobre o passado. Era sobre gratidão. O maior privilégio da vida não é acumular títulos, conquistas ou reconhecimento. É chegar a um determinado momento da caminhada, olhar para trás e perceber que tivemos a sorte de encontrar pessoas que nos fizeram melhores. De quantas delas precisamos? Provavelmente de poucas. Entretanto, quando a vida nos presenteia com uma pessoa assim, já nos oferece um motivo suficiente para agradecer.