(Imagem ilustrativa/Pixabay) Nesta semana, em uma aula na Universidade, mencionei Plutarco. A conversa com meus alunos me fez pensar em algo que vai muito além da Antiguidade. Grego de Queroneia, nascido por volta do ano 46, Plutarco estudou Filosofia e Retórica em Atenas, viveu sob o Império Romano e tornou-se conhecido por sua obra Vidas Paralelas, na qual aproximou personagens gregos e romanos. É fácil notar que a sua pretensão não era apenas contar suas histórias. Queria compreender seus caracteres. Para ele, pequenos gestos, palavras e escolhas revelavam mais sobre um homem do que grandes feitos. Essa maneira de olhar para a vida sempre me fascinou. Plutarco não nos deixou apenas biografias. Deixou referências. Ao observar homens que admirava, o leitor é convidado a refletir sobre aquilo que também poderia construir em si. Em seus escritos, a virtude não aparece como uma ideia distante, mas como algo que pode ser percebido nas escolhas e nos comportamentos. Contemplar uma vida exemplar é também uma forma de perguntar o que estamos fazendo da nossa própria vida. Penso nisso quando lembro da minha formação profissional. Tive a sorte de conviver com pessoas que se tornaram referências para mim. O Professor Vicente Cascione, na Casa Amarela, e o Dr. Walter de Carvalho, durante meu estágio na área criminal, foram fundamentais nesse caminho. Com eles aprendi Direito, mas também a estudar, ler, pensar, observar e falar. Aprendi que uma boa formação não nasce apenas dos livros, embora alguns livros sejam capazes de mudar uma vida. Nasce também da convivência com quem leva a sério aquilo que escolheu fazer. Durante a Universidade, abri mão de inúmeras férias de meio de ano para organizar grupos de estudos, júris simulados e trocas de livros de Direito, Retórica e Oratória. Hoje percebo que aquilo foi muito mais importante do que imaginava. Eu observava profissionais extraordinários e procurava entender o que os fazia diferentes. Não eram homens perfeitos nem donos de atributos inalcançáveis. Tinham, todavia, uma determinação vulcânica para alcançar aquilo que haviam escolhido construir. E isso, para quem estava começando, dizia muito. Penso que é assim que aprendemos. Alguém fala, mas também ensina sem perceber. Alguém trabalha, estuda, insiste, e o jovem que observa vai formando dentro de si uma ideia do profissional que deseja ser. A formação acontece também pelo exemplo, pela convivência e pela admiração. Algumas lições não estão nos livros, nem aparecem em uma aula. Estão na maneira como alguém enfrenta uma dificuldade, prepara um trabalho ou simplesmente cumpre, todos os dias, aquilo que se propôs a fazer. Considero que uma das maiores carências do nosso tempo está justamente aí. Faltam boas referências. No Direito, nas artes, na literatura, na música e em tantos outros campos, jovens são expostos diariamente a pessoas que acumulam visibilidade, seguidores e dinheiro, mas nem sempre encontram exemplos concretos de disciplina, conhecimento, caráter e perseverança. Há muita gente querendo mostrar o resultado, mas pouca disposição para revelar o caminho percorrido até ele. Não se trata de saudosismo. Cada geração constrói suas próprias referências. Mas nenhuma sociedade prescinde de bons exemplos. Precisamos de pessoas que possam ser admiradas não por serem perfeitas, mas pela maneira como conduzem a própria vida, pelo compromisso com aquilo que fazem e pela disposição de melhorar. O exemplo não exige grandeza pública. Muitas vezes, está mais perto do que imaginamos e precisamos estar atentos. Na advocacia e na sala de aula, procuro transmitir o que recebi: que uma boa defesa exige estudo, leitura, coragem e preparo, e que conhecimento e caráter se aprendem, essencialmente, pelo exemplo. Hoje sei que parte de quem me tornei nasceu dos professores, profissionais, livros e conversas que me ensinaram a desejar mais de mim. Por isso, escolho com cuidado aquilo que admiro e as referências que cultivo. Porque, no fim, nos tornamos aquilo que contemplamos.