[[legacy_image_219965]] No último domingo foram realizadas as eleições em segundo turno para Presidente da República e Governadores, estas últimas, nos Estados nos quais se fez necessário esse processo. Confesso que estava apreensivo para que tudo ocorresse dentro da normalidade e que não contássemos com episódios de violência em razão do clima nada amistoso das campanhas, especialmente, em se tratando das eleições presidenciais. Tenho escrito com frequência a respeito da minha preocupação com o esgarçamento do tecido social ocorrido no Brasil em razão dessa disputa e das dificuldades que encontraremos na reconstrução dessa unidade. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A definição de democracia aponta para um sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas e tem como premissa básica o respeito à decisão da maioria. Em se tratando das eleições presidenciais ocorridas há menos de uma semana, contamos com um vencedor que dirigirá o Poder Executivo Federal pelos próximos quatro anos. Encontrará um país dividido em razão da menor diferença de votos entre os postulantes, desde a redemocratização, e terá o dever de governar para todos, deixando de lado essa renhida corrida eleitoral. A dificuldade é tamanha que passados os primeiros dias da eleição, o que temos visto é a antítese do que entendemos por democracia e respeito. Inúmeros bloqueios foram realizados nas rodovias de todo o país causando prejuízos a milhões de brasileiros. Parte dos apoiadores do candidato derrotado nas urnas, inconformados com o resultado, passaram a obstaculizar os acessos, num ato de extrema violência e ilegalidade. Fábricas anunciaram a paralização da produção, voos foram cancelados, atendimentos médicos impedidos, entre outras situações que não podem ser toleradas. Diante desses acontecimentos, resta claro que precisamos amadurecer enquanto sociedade e entendermos que alternância de poder faz parte do jogo democrático. Não podemos conceber a ideia de que as regras só valem enquanto a situação está favorável para aqueles que acreditamos serem os melhores em determinado cenário. As eleições são periódicas justamente em razão dessa particularidade da democracia. Os candidatos derrotados de hoje podem ser aqueles que vencerão amanhã. Vale lembrar que o presidente eleito perdeu nas três primeiras oportunidades que disputou a presidência, e hoje, é conduzido pela terceira vez ao cargo mais importante da União. É essencial que o candidato vencedor considere, igualmente, que a vitória nas urnas – ainda mais por uma margem tão reduzida de votos – não lhe dá um “salvo-conduto” para impor decisões a seu arbítrio ou do partido do qual faz parte. Frise-se que milhões de votos que foram direcionados para ambos os lados se deram mais pela rejeição ao candidato opositor do que propriamente pelas qualidades do candidato votado na urna eletrônica. Será preciso bastante diálogo com o Congresso Nacional e a sociedade civil para a tomada de decisões sensíveis à população brasileira. O futuro mandatário contará com uma firme e atenta fiscalização desses entes. "As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes." Essa frase pinçada da esplêndida obra “O Pequeno Príncipe” do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, que conta com alto teor filosófico e poético, mesmo sendo considerada a princípio uma literatura para crianças, conta com muitas lições para os adultos, e se amolda perfeitamente com aquilo que é necessário atingir enquanto sociedade. Precisamos construir pontes, sair das bolhas nas quais nos colocamos e não nos permitimos sair. Reencontrar o respeito à opinião contrária e aprender com isso. Já construímos muros demais! O próximo presidente do Brasil foi escolhido pela maioria para os próximos quatro anos dentro das normas legais. Cabe-nos, como aliás nos coube desde sempre, fazer a nossa parte com muito trabalho, dedicação e obstinação. Ajudá-lo naquilo que for preciso e torcer para que ele faça o que for necessário e de forma honesta, igualmente. Fiscalizá-lo com empenho e atenção e não apenas de quatro em quatro anos no período eleitoral. As eleições findaram e não existem mais muros ou lados a defender, somos apenas um só povo, um só Brasil.