Há falta de um dimensionamento apropriado das rodovias, ausência de ferrovias, de estacionamento para caminhões, número de berços insuficientes e pátios para armazenagem cheios (Matheus Tagé/AT) Hoje encerro a minha trilogia O ovo ou a galinha. Segundo o dicionário Oxford, para a literatura, trilogia é um grupo de três obras, unidas entre si por uma temática comum. Já para o teatro na antiga Grécia, trilogia era um poema dramático composto de tragédias que deveriam ser representadas juntas. Os meus textos são uma mistura dos dois significados, tamanha polêmica que causaram. Bom, hoje falarei sobre o que vem primeiro: o investimento em infraestrutura para que o terminal de contêineres se prepare para o aumento do volume de carga, ou a espera pelo aumento do volume de carga para, então, se investir na expansão emergencial do terminal. É uma questão que parece simples, mas em se tratando de Brasil e investimentos milionários, a resposta não é tão óbvia. Apesar de toda riqueza natural e humana que temos no Brasil, somos um país pobre, com deficiências estruturais imensas, economia instável e uma insegurança jurídica que faz os grandes investidores (privados) serem cautelosos. É normal vermos que uma linha de metrô recém-inaugurada em São Paulo já é insuficiente, ou como a orla de Porto Alegre, que demorou décadas para ser construída, assim que inaugurada tinha milhares de pessoas usufruindo dela (sempre me pergunto onde essas pessoas estavam antes). Na área portuária não é muito diferente, ainda mais sendo um investimento altíssimo e totalmente privado dentro dos muros. Conectando ao texto anterior, alguns terminais são geograficamente privilegiados, numa região com abundância de carga, então sua curva de ocupação é mais rápida. Quando não há esse privilégio ou há muitas outras opções na mesma região, essa curva de ocupação tende a ser mais lenta, logo, o investidor demora mais tempo para ter o retorno esperado e há sempre o frio na barriga, esperando se o negócio irá realmente prosperar. Hoje vivemos um momento de altíssima ocupação em algumas regiões portuárias do Brasil, especialmente Sul e Sudeste. Há falta de um dimensionamento apropriado das rodovias, ausência de ferrovias, de estacionamento para caminhões, número de berços insuficientes e pátios para armazenagem cheios. Sobre a infraestrutura pública que depende do Governo, sabemos que está sempre atrasada em relação à necessidade de investimento versus a demanda reprimida. Mas e aquela que depende exclusivamente da iniciativa privada? A resposta é difícil e qualquer certeza é irreal. Muitas vezes só com os terminais de contêineres lotados é que o negócio começa a dar o retorno financeiro esperado. Junto com a necessidade real de expansão vem os questionamentos: Será que esse movimento é temporário? E se o dólar subir (ou cair)? E se o projeto de um novo terminal concorrente que está parado há dez anos acontecer? E se uma nova regulação portuária for criada pelo Governo? São tantas variáveis que a resposta é uma incógnita e a decisão pelo investimento na expansão é um ato de coragem. E são os atos de coragem que tornam uma pessoa (que dirige uma empresa) empreendedora na área portuária. O negócio portuário é muito bom (e essencial). Quem conhece a fundo sabe que é preciso ser muito ruim para dar errado. O Brasil tem uma população jovem que faz inveja a qualquer país da Europa, então precisamos é de coragem para expandirmos a infraestrutura portuária para alcançarmos novos mercados e impulsionarmos o desenvolvimento do País.