As movimentações brasileiras foram moldadas a partir das características do Porto de Santos (Matheus Tagé/Arquivo AT) Seguindo a trilogia, hoje avançaria para a parte II com outro assunto (infraestrutura x volume), mas como surgiram alguns questionamentos em relação à verticalização da logística portuária e como isso impacta (ria) no sucesso (ou não) de um terminal de contêineres, vou incluir mais um capítulo. A verticalização da logística portuária refere-se ao processo pelo qual os armadores (donos de navios) adquirem ou estabelecem controle sobre diferentes etapas da cadeia logística, incluindo terminais portuários, operações de armazenagem e até mesmo outros serviços, como rebocadores e agências de navegação. Essa condição permite que uma única empresa controle várias etapas do processo logístico, desde o transporte marítimo até a entrega final da carga. Nesse caso, o ovo e a galinha chegariam juntos, pois estão embaixo do mesmo “guarda-chuva”. Essa verticalização pode trazer alguns benefícios em relação a eficiência operacional, a redução de custos e um melhor controle na qualidade e no tempo de entrega dos serviços. Os críticos a essa condição acreditam que a verticalização tende a levar a uma concentração de mercado e reduzir a concorrência (o que não deixa de ser verdade), se tornando o principal motivo do sucesso de um terminal de contêineres. Portonave (SC), BTP (SP) e Itapoá (SC) são terminais de contêineres que têm alianças com armadores. O primeiro é 100% da TIL (MSC), o segundo 50% MSC, 50% Maersk, e o terceiro 30% Maersk. Hoje os três figuram entre os cinco maiores terminais movimentadores de contêineres no Brasil, se mostrando eficiente a verticalização. Já o maior terminal de contêineres do Brasil, quiçá da América Latina, da Santos Brasil, localizado em Santos, não tem aliança com nenhum armador, sendo chamado assim de “bandeira branca”, e há anos se mantém na liderança. Por outro lado, a mesma empresa tem um terminal de contêineres em Santa Catarina, sem o mesmo sucesso desde que foi adquirido, em 2008. O TCP, outro terminal de contêineres “bandeira branca”, localizado em Paranaguá, figura em segundo lugar em volume justamente por ser o único do Paraná, mas também por estar localizado em um estado líder na exportação de proteína animal congelada, a carga mais desejada pelos armadores que escalam o Brasil. Acreditar que apenas a verticali-zação irá garantir o sucesso de um terminal de contêineres não se encaixa perfeitamente na realidade brasileira. Lembrando da parte I dessa trilogia, a questão da localização estratégica e da infraestrutura tem papel fundamental para a atratividade de um terminal. E junto a isso tem a eficiência e a confiabilidade, o que podemos entender o porquê de a Santos Brasil estar há tantos anos em primeiro lugar, pois é o terminal com menor tempo de espera para a atracação de um navio na costa brasileira. A verticalização pode trazer benefícios e garantir volume, mas existem vários fatores que contribuem para o sucesso de um terminal de contêineres, como sua localização estratégica, a eficiência operacional, os acessos logísticos por terra e mar, os serviços acessórios disponíveis, uma tecnologia avançada e relações fortes com os clientes. Portanto, enquanto a verticaliza-ção pode oferecer vantagens competitivas, terminais de contêineres podem prosperar sem ela, focando em outros aspectos operacionais e estratégicos que impulsionam o sucesso no setor portuário.