O Brasil vive um paradoxo estrutural. Dono de riquezas naturais incomensuráveis, uma população jovem e uma posição geopolítica estratégica, o País se vê constantemente ancorado por um arcabouço fiscal e tributário asfixiante. A complexidade e a magnitude dos custos impostos ao setor produtivo não apenas freiam o crescimento econômico, mas paralisam o potencial de inovação e competitividade internacional. Enquanto o debate público muitas vezes foca na arrecadação imediata para sustentar a máquina pública, vizinhos e concorrentes globais demonstram que o caminho para a prosperidade pode seguir uma lógica inversa. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O fenômeno da atração de capital pelo Paraguai serve como um laboratório prático para a América Latina. Historicamente visto pelo Brasil sob uma ótica de assimetria econômica, o país vizinho implementou o sistema conhecido como Triple 10 (10% de imposto de renda corporativo, 10% de imposto de renda pessoal e 10% de Imposto sobre Valor Agregado, o IVA). Essa simplicidade e a modicidade tributária transformaram o Paraguai em um polo de atração para indústrias e capital estrangeiro — inclusive brasileiro. O regime de maquila paraguaio oferece isenções substanciais para a importação de matérias-primas e exportação de produtos acabados. O resultado é previsibilidade (empresas conseguem calcular seu custo de capital a longo prazo), segurança jurídica (menos regras significam menos litígios e menos burocracia) e fuga de capital (recursos que poderiam ser investidos em infraestrutura e empregos no Brasil cruzam a fronteira em busca de oxigênio financeiro). A governança fiscal brasileira pauta-se em uma premissa perigosa: a de que o aumento de alíquotas compensa a ineficiência do gasto público. No entanto, a Curva de Laffer (teoria econômica que mostra que existe um ponto ideal de cobrança de impostos para maximizar a arrecadação do governo, e que taxas excessivamente altas podem, na verdade, diminuir a receita) ensina que existe um limite onde o aumento de impostos passa a reduzir a arrecadação. Quando o Estado eleva a carga tributária ao extremo, ele desencadeia dois movimentos simultâneos: 1 - Grandes investidores e multinacionais possuem mobilidade global. Se o custo regulatório e tributário do Brasil se torna proibitivo, o capital migra para jurisdições mais amigáveis. 2 - Ao encarecer produtos básicos, serviços e o próprio emprego formal, o sistema empurra as classes mais baixas para a economia informal. Buscar opções de sobrevivência fora do radar do fisco não é uma escolha ideológica para as famílias de baixa renda, mas uma necessidade de subsistência. O governo aumenta impostos porque arrecada menos; ao aumentar os impostos, o capital foge e a base informal cresce, reduzindo novamente a base tributável real e paralisando a capacidade do Estado de investir. O questionamento central ganha força: seria melhor ter impostos baixos onde todos pudessem pagar? A resposta econômica aponta para o modelo de base ampla e alíquota baixa. Quando o imposto é justo e de fácil compreensão, o custo de conformidade (o gasto para entender e pagar o imposto) despenca. A sonegação e a informalidade deixam de compensar o risco legal. Se o Brasil adotasse uma estrutura tributária simplificada e moderada, o ganho de eficiência traria milhões de trabalhadores e microempresas para a economia formal, gerando um ciclo virtuoso de consumo, crédito e investimento. Ao compararmos a carga tributária e a complexidade do Brasil com a média global, o isolamento do País fica evidente. No Brasil, o tempo dedicado ao pagamento de impostos chega a aproximadamente 1.500 horas por ano, enquanto a média nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de cerca de 160 horas. Em países emergentes, como Paraguai e Chile, esse tempo varia de aproximadamente 140 a 300 horas anuais. A diferença também aparece na tributação sobre bens e serviços: elevada e cumulativa no Brasil, moderada e concentrada no valor agregado na média da OCDE, e moderada a baixa nos países emergentes. Apesar desse peso, o retorno brasileiro em serviços públicos e desenvolvimento humano apresenta baixa eficiência, enquanto os países da OCDE registram alta eficiência e os emergentes citados oferecem um retorno compatível com sua carga tributária. Esse contraste ajuda a compreender como a tributação afeta a competitividade. Enquanto as economias mais desenvolvidas do mundo buscam desonerar a cadeia produtiva e o consumo, o Brasil historicamente sobrecarregou a produção, encarecendo o produto interno antes mesmo de ele sair da fábrica. Nenhum setor sente tanto o peso dessa paralisia quanto o comércio exterior e a atividade portuária. O Brasil possui uma das maiores costas navegáveis do mundo, mas sua participação no comércio global permanece tímida, flutuando historicamente próxima a apenas 1%. Os altos impostos sobre a importação de bens de capital (máquinas e tecnologias pesadas) impedem a modernização célere dos portos. Adicionalmente, as taxas portuárias acessórias, somadas à burocracia de liberação alfandegária e à complexidade na restituição de créditos tributários de exportação, criam o famigerado Custo Brasil. Se o País adotasse uma visão de hub logístico global — desonerando o fluxo de mercadorias, simplificando os regimes aduaneiros e reduzindo drasticamente os impostos sobre a cabotagem e o comércio internacional , o setor portuário seria um motor de riqueza. Portos eficientes e baratos atraem rotas marítimas globais, transformam o entorno em complexos industriais de ponta e barateiam o acesso do cidadão a produtos globais, além de tornar a exportação agrícola e industrial brasileira imbatível em margem de lucro. A insistência em um modelo extrativista de alta tributação drena a energia vital da economia brasileira. O exemplo de dinamismo de vizinhos como o Paraguai e a eficiência das economias de livre mercado globais deixam claro que a riqueza de uma nação não se mede pelo tamanho de sua arrecadação estatal, mas pela velocidade e liberdade com que o capital circula, produz e gera empregos. Uma mudança de mentalidade na governança fiscal não é apenas uma reforma técnica, mas uma urgência social. A reforma tributária brasileira (instituída pela Emenda Constitucional 132/2023 e regulamentada depois pela Lei Complementar 214/2025) introduziu o modelo de IVA Dual (formado pela CBS federal e pelo IBS estadual/municipal) para substituir o antigo emaranhado de tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS). Embora o objetivo central seja a simplificação e o fim da cumulatividade, o setor de serviços é o que exige maior cautela e gera mais preocupação. O grande nó desse segmento reside na sua própria natureza operacional. Sob a lógica do IVA, uma empresa abate o imposto pago na etapa anterior a partir dos insumos adquiridos. Contudo, a principal força motriz do setor de serviços é a mão de obra humana. Salários e encargos trabalhistas não geram créditos de IVA. Muitas empresas de serviços operavam sob o regime do lucro presumido, pagando alíquotas fixas e baixas de ISS (entre 2% e 5%) e PIS/Cofins cumulativos (3,65%). Com a alíquota padrão unificada do IVA Dual estimada entre 25% e 35%, esses negócios enfrentarão uma elevação abrupta na carga nominal. Sem insumos suficientes para gerar créditos e amortizar a pancada fiscal, prestadores de serviços (como consultorias, TI, segurança, limpeza e profissionais liberais) serão forçados a repassar esse custo integralmente para o preço final. Setores essenciais como saúde e educação contam com redutores de alíquota de 60%, mas o restante do mercado de serviços enfrentará compressão de margens e riscos de desaceleração da demanda. As micro e pequenas empresas que vendem serviços para outras empresas (B2B) perderão competitividade se repassarem créditos menores do que o regime geral, exigindo um planejamento tributário agressivo para sobreviver na transição que vai até 2033. O contraste com o cenário de transição brasileiro é a agressiva e bem-sucedida política de incentivos fiscais do Paraguai, ancorada principalmente na Lei de Maquila. O termo refere-se ao sistema em que empresas estrangeiras (matrizes) instalam filiais ou subcontratam indústrias no Paraguai para processar mercadorias e bens destinados exclusivamente à exportação. Em vez da complexa cadeia de impostos de produção, as indústrias sob o regime de Maquila pagam apenas um imposto único de 1% sobre o valor agregado ao produto no território paraguaio (ou sobre o valor da fatura emitida, o que for maior). Maquinário, matéria-prima, ferramentas e insumos importados para o processo industrial entram no Paraguai com tarifa zero (suspensão total de tributos aduaneiros). O envio de lucros e dividendos da filial paraguaia para a matriz estrangeira é totalmente isento de impostos. Como o Paraguai integra o bloco Mercosul, os produtos industrializados ali ganham o certificado de origem e entram no gigantesco mercado consumidor brasileiro com tarifa zero de importação, competindo diretamente (e com enorme vantagem de preço) com as indústrias localizadas dentro do próprio Brasil. Estima-se que mais de 70% das indústrias de maquila no Paraguai sejam de capital brasileiro ou de capital misto com forte atuação no Brasil. Setores como autopeças, têxtil, plásticos e manufatura leve migraram massivamente para o país vizinho, convertendo o Paraguai em uma espécie de “China da América do Sul” para o empresariado nacional que busca fugir do Custo Brasil. Enquanto o Brasil tributa a cadeia de comércio exterior pesadamente logo na entrada (com Imposto de Importação, IPI, CBS, IBS e taxas de capatazia portuária), as economias mais dinâmicas do planeta adotam o modelo de porto franco (free port) ou Zonas Processadoras de Exportação desoneradas como hubs de geração de valor. Um porto franco é uma área delimitada onde as mercadorias podem ser descarregadas, armazenadas, movimentadas, testadas e até industrializadas sem a incidência de direitos aduaneiros e impostos locais. A tributação só ocorre se o produto sair do porto para ser vendido no mercado interno daquele país. Considerado um dos maiores e mais eficientes hubs logísticos do mundo, Singapura transformou seu território em uma grande zona franca. Os produtos globais entram, são consolidados, processados e reexportados sem fricção tributária ou burocrática. A ausência de tarifas sobre o fluxo de carga atrai as maiores frotas marítimas e empresas de logística do planeta. A encruzilhada da liberdade econômica A paralisia gerada pelo manicômio tributário brasileiro não é apenas um problema matemático ou contábil; trata-se de um dilema de governança, ética e filosofia política. Quando o Estado eleva o custo de produzir a níveis proibitivos, ele sufoca a criatividade humana e sabota o próprio futuro da nação. Diante do contraste pragmático com o dinamismo do Paraguai e a eficiência dos portos francos globais, a busca por uma luz no fim do túnel exige recorrermos à sabedoria de grandes pensadores e autoridades que decifraram a mecânica da prosperidade das nações. O imposto como barreira O cenário brasileiro encontra eco nas palavras de Adam Smith, o pai da economia moderna. Em sua obra seminal A Riqueza das Nações, Smith alertava que “impostos excessivos, ao desencadearem uma obstrução no comércio e na indústria, frequentemente reduzem a arrecadação do governo a um patamar menor do que aquele que seria obtido com taxas mais moderadas”. Essa constatação clássica moldou o que o economista norte-americano Arthur Laffer formalizou no século 20 através da Curva de Laffer, demonstrando graficamente que alíquotas abusivas destroem a base tributável ao sufocar o incentivo para trabalhar e investir. No Brasil, o excesso de peso fiscal gerou o paradoxo da informalidade e da fuga de capitais — um movimento previsto pelo filósofo iluminista Montesquieu, que em Do Espírito das Leis pontuou: “A receita do Estado não deve ser medida pelo que o povo pode dar, mas pelo que ele deve dar com base na sua liberdade”. Para Montesquieu, quando o tributo destrói a liberdade de empreender, ele corrompe a própria governança. O resultado é o que o economista da Escola Austríaca e Prêmio Nobel Friedrich Hayek chamava de distorção de incentivos. Ao tentar controlar e taxar cada etapa da produção e do comércio exterior, o Estado brasileiro gerou uma centralização burocrática que paralisa a tomada de decisões e afasta o país das cadeias globais de valor. Apesar do diagnóstico severo, o Brasil possui rotas claras para romper esse ciclo vicioso e destravar seu potencial. A luz no fim do túnel reside na coragem política de alinhar o País às melhores práticas internacionais. O primeiro feixe de luz está na transição iniciada com a unificação dos impostos sobre o consumo (IVA Dual). Embora o setor de serviços enfrente desafios severos de curto prazo com o redesenho das alíquotas, o fim do modelo cumulativo e a extinção da guerra fiscal interestadual são passos fundamentais. O caminho para o sucesso dessa transição é a busca obstinada pela redução da alíquota padrão por meio do corte de gastos públicos ineficientes e da ampliação da base formal. Quando o sistema se torna simples, o custo de conformidade desaba e o capital volta a enxergar o Brasil com previsibilidade. Para o comércio exterior e o setor portuário, a solução passa pela desestatização e pela flexibilização regulatória. O Brasil precisa evoluir sua legislação para permitir o surgimento de Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) autênticas e portos francos em suas principais frentes marítimas. Inspirar-se no pragmatismo de Singapura ou de Roterdã (Holanda) significa entender que o porto não deve ser um posto de arrecadação imediata, mas um ecossistema gerador de empregos, tecnologia e valor agregado. Menos tarifas sobre o fluxo de mercadorias significam mais navios, mais indústrias de ponta nas franjas portuárias e maior inserção global. Como defendia o economista Milton Friedman, “a sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade terminará sem nenhuma das duas”. A verdadeira justiça social para a base da pirâmide brasileira não virá de subsídios estatais sustentados por impostos altos, mas da desoneração do consumo e da facilidade para empreender. Ao reduzir os impostos sobre itens básicos e simplificar a vida do microempreendedor, o País resgata milhões de cidadãos da informalidade e os insere na economia formal de forma digna e competitiva. O exemplo do Paraguai demonstra que o capital não possui pátria; ele migra para onde é respeitado e onde encontra oxigênio para crescer. O Brasil possui um mercado interno gigantesco, infraestrutura em expansão e recursos naturais estratégicos que o Paraguai não possui. Se combinarmos essa força intrínseca com uma governança fiscal de impostos moderados e base ampla, o País deixará de ser o “manicômio tributário” para se tornar o porto seguro do capital global. A luz no fim do túnel já foi mapeada pela história e pelos grandes pensadores. Resta ao Brasil parar de correr na direção contrária e abraçar, em definitivo, a liberdade de produzir. *Consultor para assuntos portuários do Grupo Tribuna