Tom Jobim. Não sabemos em que momento cunhou a frase que acabou ficando célebre. Ele deve ter tentado dizer que o Brasil não é uma cultura fácil de entender de imediato, principalmente para os estrangeiros. Esse é o desafio de muitos do nosso setor, quando temos de explicar tantas regras e absurdos com os quais convivemos em nosso dia a dia, seja no regramento e instabilidade jurídica/política nas operações portuárias e marítimas, ou nos investimentos que devem ser feitos. Já tentou explicar que a regra do jogo muda com o jogo em andamento, ao sabor do momento político que estamos vivendo, para as empresas e executivos internacionais? Existem alguns costumes bem brasileiros, como combinar um “a gente se vê”, que na realidade significa “não vamos marcar nada”. E usar eufemismos para dizer que não irá, do tipo: “Você vai?”. A resposta é: “Se Deus quiser”. Uma cultura que usa termos para tentar dizer que não quer fazer algo dizendo que fará, prometer sem entregar. Aqui no Brasil, quando encontramos alguém, costumamos dizer ao nos despedirmos: “vamos marcar um almoço”, “combinamos um jantar para logo”, coisas assim. Uma maneira de mostrar que queremos ver a pessoa novamente, mas que talvez o encontro nunca aconteça. Em certos países, ao dizer algo assim, certamente a pessoa ficará aguardando o encontro. E se não for marcado, ficará decepcionada. Certa oportunidade, em um jantar de negócios, um americano era totalmente incapaz de conversar, porque as pessoas não esperavam as outras acabarem de falar para tomar a palavra. Todo mundo falava por cima de todo mundo. Ele não achava um intervalo para começar a falar e ficou completamente irritado. Voou de volta para sua cidade sem entender a enlouquecedora burocracia para quem tenta fazer investimentos, a politicagem e o tal “jeitinho” brasileiro que sempre tentamos explicar, mas que não tem explicação. O Brasil não é para principiantes, o comércio exterior e o negócio portuário também não. Surgem brigas infindáveis por temas e conduções que afetam o negócio ou a sua estratégia. Por aqui temos o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e muitos outros órgãos federais que orbitam o destino dos negócios portuários nacionais. Por muitas vezes, um decide algo que outro já decidiu, e outro decide algo diferente do que os outros dois já decidiram. Para os empreendedores do setor portuário, marítimo e do comércio exterior, é necessário conviver com decisões favoráveis de um órgão quanto a um tema, que meses depois tornam-se desfavoráveis por outro órgão. O ciclo continua e nunca saberemos a quem tanto interessa essas decisões ou indecisões. Principiantes não conseguem jogar essa “game” tão complexo, onde um armador compra outro armador, que depois compra um agente de cargas, que na sequência compra um avião, que depois dos aviões compram armazéns. Mas não é permitido verticalizar operações. É claro que isso depende de cada caso e, assim como no Brasil, as regras do Comex não são para principiantes também. Um frigorífico vai virar operador portuário. E no futuro, também pode virar o quê? Difícil entender esses movimentos que são permitidos em certas ocasiões e em outras não! O impulsionamento dos negócios dentro do Comex e no setor portuário por meio dos investimentos e empresas que queiram expandir seus negócios sempre favorecem a economia local e nacional, gerando oportunidades de empregos e avanço do setor. Com isso o foco deve estar sempre no desenvolvimento estruturado e não de interesses. Ao invés de proibir ou burocratizar, deveríamos pensar em expandir a infraestrutura portuária. Destravamos a agenda de concessões e com isso os investimentos vieram “aos montes”, mas esquecemos que, ao aumentar o número de operadores, aumentamos o volume de cargas. É necessário, também, investir - na mesma velocidade - em infraestrutura de acesso rodoviário e aquaviário. Isso não significa que esses movimentos ocorrerão rotineiramente e com a velocidade ideal. Tudo depende, assim como mencionado no início do artigo, se as pessoas certas “irão se ver” e se todos nós rezaremos para, “se Deus quiser”, as regras não mudarem.