(Imagem gerada por IA) Um senhor caminhava errático pela calçada, no final de tarde de uma terça-feira quente. Estava em frente de casa — um prédio baixo antigo — e olhava em direção a um empreendimento imobiliário faraônico erguido recentemente na vizinhança. Ele atravessava a rua e mantinha o olhar fixo, como se tentasse enxergar algo que ninguém via ou procurasse alguma coisa na lateral do edifício. Na rua, as pessoas encaravam com desconfiança aquele homem inquieto. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Chateado, abaixou a cabeça e retornou para o portão do seu prédio. Pegou o celular e ligou para a filha: “Infelizmente, acho que nunca mais vou conseguir ver. Mas foram bons tempos”. O homem não parecia ser tão velho assim para aquela afirmação pessimista. Na verdade, ele buscava uma visão impossível. De sua janela, ele agora encarava a sombra do novo edifício projetada sobre a sala, que encobria o prédio inteiro. Ele estava acostumado a observar o pôr do sol entrando pela janela no final da tarde. Todos os dias, os raios iam surgindo aos poucos e tomavam conta das paredes brancas do apartamento. Um clarão laranja opaco aquecia todo o ambiente em um processo de avermelhamento progressivo, até que o azul da noite chegasse. Era uma atração que assistia enquanto tomava o café da tarde — um ritual. Um momento em que podia pensar no dia, na semana e na vida. A sombra fazia o dia terminar mais cedo, transformando tudo em noite antes mesmo do relógio permitir. O homem buscava algo que existia somente na lembrança. Aquele pedaço de céu que era só seu nunca mais seria. Nem mesmo o vento soprava mais — não naquele enquadramento da janela da sala. Além do sufocamento, restava a memória da perda. Sem perceber, o progresso passou por cima de sua rotina. O sujeito esquecera da última vez que viu o céu por inteiro. A sombra chegou aos poucos. No começo, quando as vigas formavam as estruturas ósseas da construção, o sol ainda conseguia escapar por feixes de luz. Mas, de repente, uma profunda espessura de concreto com vidros espelhados tampou tudo. O céu refletido nessas janelas não é mais o mesmo. Para ele, aqueles espelhos reproduziam apenas o vazio, uma ilusão capaz de confundir até mesmo os pássaros que passavam por ali. Foram quarenta anos. As memórias familiares registradas em retratos na parede se perdem na escuridão da modernidade. Apesar de todos os percalços da vida, era a visão da janela que lhe dava uma verdadeira sensação de liberdade. Para sua angústia, nunca pensou em fotografar um fim de tarde. Era como se aquela cena fosse apenas para ser vivida. Ele estava diante de seu próprio apagamento. O céu era um passado imaginário. Para escapar do aprisionamento, ia para a rua todas as tardes. Quem o vê hoje nunca vai saber que um dia foi um homem livre. Boa semana!