(Imagem criada por IA) Na calçada, dezenas de pessoas se amontoam ao redor de uma banca de jornal. A bagunça de negociações acaloradas se mistura com o barulho de veículos que passam no entorno. O local é um espaço de troca de figurinhas da Copa do Mundo. Um sujeito dizia que uma figurinha brilhante vale duas normais; um menino discutia, argumentando que os craques também. Alguns faziam escambo com figurinhas especiais e jogadores apontados como promessas. Uma menina pequena, acompanhada de seu irmão mais velho, trocava figurinhas utilizando um aplicativo que registrava o fluxo de repetidas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A cada quatro anos, a magia da Copa do Mundo faz com que adentremos a dimensão do futebol espetáculo. É como se pudéssemos contar o tempo através dos álbuns. Trata-se de um exercício para a memória. Três álbuns atrás, em 2014, minha esposa e eu completamos a publicação para o meu filho, que na época tinha apenas dois anos. Voltando ainda mais no tempo, em 1994, eu estava na primeira série do Ensino Fundamental e meu pai me buscava no colégio mais cedo para assistirmos aos jogos da seleção. O sol de fim de tarde batia na janela, e no intervalo da partida, jogávamos bola na sala – cobranças de pênaltis, antes do segundo tempo. As figurinhas repetidas de 1994 e 1998 eram registradas em papel sulfite, e usadas para bater bafo na escola. Hoje, a poucas semanas da Copa, meus filhos estão com o álbum praticamente completo. É interessante observar este breve intervalo de tempo que é a Copa do Mundo – como um lapso. Um clima fantástico que envolve a expectativa por um instante fugidio de alegria coletiva: o gol. O álbum é uma interface que congela o tempo e cria recordações que vão além das imagens dos jogadores, ou escudos brilhantes de seleções. Talvez o álbum seja uma espécie de resistência documental contra a aceleração do tempo. Neste Mundial, veremos a última dança de Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. As figurinhas do argentino e do português serão as derradeiras. Quanto à ausência do craque brasileiro no álbum, imagino que será corrigida por alguma edição especial. Para além das críticas, daqui a um ou dois álbuns, estes três personagens serão memórias de uma era do futebol que não existirá mais. A prova disso é a nova geração; enquanto colava figurinhas, minha filha perguntou: “Pai, o Lamine Yamal é bom?” Os retratos dos jogadores, que personificam o esporte, estarão fixados para sempre nas páginas dos álbuns. No entanto, atletas e colecionadores envelhecerão; o tempo passará. É tentador imaginar como estaremos daqui a quatro ou cinco álbuns; uma perspectiva tão surpreendente quanto a sensação de abrir um pacote de figurinhas, sem saber o que pode aparecer. As memórias vão muito além do futebol. A cada quatro anos, teremos sempre uma última dança com o presente. Boa semana!