Falso aplicativo pode espionar aplicativos bancários, capturar senhas e redirecionar transferências financeiras (Vanessa Rodrigues/AT/Arquivo) Após uma longa manhã de reuniões, um sujeito saía pela portaria de um edifício espelhado. O céu branco acinzentado se multiplicava nas superfícies reflexivas dos prédios da avenida. Uma redundância arquitetônica: espelhos por todo lado. A garoa fina não o incomodava. Seguia em direção a um restaurante próximo, para o intervalo do almoço. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O homem caminhava com o celular próximo ao rosto, conversando com alguém. Enquanto atravessava a rua, em meio à multidão, seguia falando em voz alta. Parecia tentar aconselhar seu interlocutor, como se buscasse uma solução para algum tipo de problema. Ele falava sobre ter paciência e um pouco de flexibilidade, ou algo do tipo. Um tanto distraído, atravessou a faixa de pedestres com o sinal aberto. Ele seguia falando enquanto os carros desviavam. Assim que chegou ao restaurante, o sujeito permaneceu na porta e continuou a conversa. Parecia compenetrado no assunto. Do outro lado da rua, uma cena insólita: um rapaz corria com uma bolsa de couro na mão. Achou estranho; mas a conversa era importante, e não teve tempo de se distrair. De repente, um motoqueiro subiu na calçada. Veio por trás do sujeito, desviou de uma árvore e agarrou seu celular, puxando com violência. No susto, ele não entendeu nada. Ainda segurou o aparelho por alguns segundos, resistindo ao puxão. Mas a aceleração da moto superou sua resistência. O celular escapou de suas mãos. Somente naquele momento, o homem conseguiu entender a situação. Um frio lhe percorreu a espinha. Em uma fração de segundos, deve ter imaginado o inevitável transtorno. Senhas de banco, carteira de motorista, e-mails, mensagens do trabalho, dos amigos, da família. Com certeza deve ter lembrado das infinitas imagens que armazenava na galeria de fotos e que não tinha arquivado em outro lugar. O risco de perder tudo aquilo era alto demais. Sua reação insensata, naquele milésimo de segundo, foi explosiva. Xingou o ladrão com todas as forças - sobraram ofensas até para a mãe do meliante. Em seguida, correu atrás do assaltante. Na esquina, um grupo de pessoas parou para olhar a cena. Na padaria, os clientes também assistiam, temerosos por um desfecho trágico. O ladrão parecia não estar armado, ou talvez tivesse sentido que a situação começava a sair do controle - eram muitas variáveis. Então, jogou o celular na calçada e acelerou rumo à avenida, desaparecendo entre centenas de carros que cruzavam a cidade. O homem recuperou o celular caído. Ainda estava inteiro. Ele estava calmo. E a ligação, ainda aberta. Então, colocou o aparelho no ouvido e retomou a conversa no mesmo tom de antes. Enquanto contava para alguém do outro lado da linha o que havia acontecido, as pessoas que passavam lhe perguntavam se estava bem. Era apenas mais um dia na cidade. Se despediu do contato, desligou a ligação e entrou no restaurante. Era dia de macarronada. Boa semana!