Revisitando o arquivo de imagens do celular, verifiquei que não publiquei nem 10% do meu acervo total. Convido o leitor a verificar essa questão no seu aparelho (Matheus Tagé) Uma imagem de um menino vestido de super-herói. Um registro borrado de uma menina em uma apresentação de patinação. Alguns detalhes de uma capa de jornal de anos atrás. Imagens de páginas de livros para futuros fichamentos. Um pôr-do-sol; um homem andando de bicicleta por cima de traços geométricos na rua; os pés descalços na areia de uma praia vazia. Uma cena de trânsito em um dia chuvoso. Uma mulher com roupas coloridas e um cachorro passando por um muro grafitado. Um Fusca estacionado há dias, em um mesmo lugar, emoldurado em frente a uma janela. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! São tantas imagens aleatórias que guardamos no aparelho celular, que esses dias, parei para pensar: afinal, qual a função desses registros? Diferente dos antigos álbuns do século passado, em que as famílias costumavam colecionar memórias, com a digitalização da fotografia, em paralelo à virtualização das relações com a imagem, passamos a produzir uma infinidade de cenas que, na prática, jamais serão vistas. Aqui, percebo uma problemática. Há que se pensar que a imagem assume tal protagonismo no contemporâneo. De certa forma, a possibilidade de fotografar é tão dinâmica por meio de aparelhos celulares, que fica quase impossível determinar a quantidade exata de fotografias produzidas todos os dias. Se considerarmos que existem bilhões de aparelhos smartphones no mundo, podemos imaginar por alto a quantidade de registros visuais que são feitos. Certamente, algumas dezenas de bilhões. Há uma infinidade de imagens aleatórias que circulam, diariamente, por inúmeras redes sociais e aplicativos de conversas. Mas essa é a ponta do iceberg. Por trás da superfície, há um cemitério de imagens ignoradas e deletadas. As razões podem ser as mais diversas: talvez a foto não esteja boa ou a cena não pareça importante; pode ser que tenha faltado alguém na imagem; ou, simplesmente, a foto foi deletada por não parecer algo interessante de se publicar em alguma rede. Ora, mas se não é uma imagem interessante, por qual motivo, então, a registramos? Revisitando o arquivo de imagens do celular, verifiquei que não publiquei nem 10% do meu acervo total. Convido o leitor a verificar essa questão no seu aparelho. Imagens que vagam no limbo das nuvens de dados. Sem função na dinâmica da comunicação, uma vez que não serão vistas, ninguém lembrará das situações que registramos. São imagens que se descolam do fluxo incessante das redes. Podem até ser registros que façam sentido para quem fotografou, mas em sua maioria, são imagens cujo significado se perdeu no labirinto da memória. Essas fotografias estão mortas. Seria interessante se conseguíssemos reconstruir a narrativa em torno de cada imagem que produzimos, ainda mais no caso dessas cenas efêmeras que fatalmente não recordamos. Neste contexto enigmático das imagens fantasmáticas, encontrei uma cena com um Fusca. Durante alguns meses, fotografei a presença do carro em frente à janela. Em várias ocasiões, por algum motivo – talvez, pela minha fixação por Fuscas – fiz um mesmo registro. Isso me chamou a atenção, pois talvez nem tenha percebido que havia feito a mesma foto, em datas diferentes. Verifiquei a recorrência dessas imagens somente na última semana, quando resolvi limpar o arquivo do celular, e dar uma morte digna às fotos abandonadas. Por acaso, olhei pela janela novamente, e lá estava o Fusca por entre as árvores, estacionado no mesmo lugar de sempre. Decidi aguardar para descobrir quem o pilotava, tentar entender alguma informação para fechar a sua breve história na minha memória. Eu esperei a tarde inteira, e nada. Foi então que resolvi descer e verificar de perto. Do elevador, escutei o ronco característico da ignição de um Fusca. Me apressei. O elevador parou em outro andar, uma senhora entrou. A conversa parecia mais arrastada que o habitual: eu corria contra o tempo. Chegando ao térreo, um casal com um carrinho de compras travou a passagem. Por educação, deixei a vizinha passar na minha frente, e ela puxou assunto com o porteiro. Fiquei preso. No ímpeto de descobrir informações sobre o Fusca, pulei o carrinho de compras. Acelerei em direção à rua, e finalmente cheguei na frente do prédio. O Fusca já virava a esquina. De costas, dava para identificar a silhueta de uma mulher. Havia também um cachorro no banco de trás. Na verdade, eu tive um pequeno vislumbre, nada muito certo. Voltei para casa cabisbaixo. Em frente ao elevador, resolvi consultar o porteiro, para verificar se ele sabia de quem era aquele carro que ficava sempre ali na frente. Ele disse que nunca reparou. Ainda não tenho ideia da história em torno daquela imagem, mas o registro, ao menos, prova que aquilo existiu em algum momento. Nunca mais vi aquele fusca. Boa semana!