(Pixabay) No fim da tarde, no balcão da lanchonete, um senhor coloca uma colher de açúcar no café, enquanto espera o pão na chapa ficar pronto. Mais ao lado, uma mulher folheava o jornal e fazia uma ligação pelo celular; um garotinho arriscava dobraduras em formato de avião com os guardanapos. Com uniforme escolar, o menino comia coxinha e tomava Coca-Cola. Um entregador chegou apressado, amarrando a bicicleta no poste, a fim de retirar os pedidos do dia. Enquanto atendia os clientes, um garçom se assustou com o disparo simultâneo de notificações nos celulares. Os aparelhos telefônicos dispararam com um assustador registro sonoro – um ruído de ventania. Uma sinalização em amarelo com um ponto de exclamação surge nas telas. O aviso era o mesmo para todos, e dizia: “Alerta Severo”. Era um comunicado avisando sobre a previsão de chuvas intensas na região. Um transtorno que se tornou rotina na nova realidade do mundo em crise climática. “A única coisa que podem fazer a esta altura é avisar”, brincou o senhor, enquanto comia o pão quente com manteiga. O homem que esperava os lanches para fazer entrega apressou o garçom. Afinal, queria sair antes que a chuva começasse. A mulher também acelerava o menino para que tomasse logo o refrigerante e pudessem ir embora. Mas o garotinho enrolava para terminar e se distraía construindo aviões de papel. Do lado de fora, na rua, o vento começava. O sol quente cedia espaço para um céu de nuvens acinzentadas. Na calçada, a poeira do asfalto e as folhas se misturavam à ventania. A tempestade se precipitava. O entregador olhava o aplicativo no celular e guardava os pacotes de lanche na mochila térmica quadrada. Era um dia de trabalho, quanto mais rápido entregasse, mais tempo teria para outras entregas. “Não é melhor esperar um pouco, rapaz?”, perguntou o senhor. “Não tem como. Tenho muito serviço hoje. Tempo é dinheiro”, respondeu. A mulher estava na porta da lanchonete com o garoto e aguardava um carro de aplicativo. “Parece que o sistema travou”, lamentava. O menino levava os aviões de papel amassados no bolso. Então, pegou um, alinhou o papel esticando as pontas, e arremessou com toda a força. O avião subiu, estranhamente, em linha reta, rodopiou com o vento e voltou na direção do garoto, fazendo um desvio e indo até o balcão da lanchonete. O senhor brincou: “Nem avião voa nesse tempo. De bicicleta é pior ainda”. O garçom e o entregador deram risada. Nesse instante, um relâmpago riscou o céu. A chuva caiu com violência. As gotas pareciam pequenas pedras que arrebentavam ao tocar o chão. Afinal, o entregador teria que esperar. Enquanto isso, o menino atirava aviões na chuva, que caíam despedaçados no meio-fio. A rua estava inundada. Inquieto, o menino pegou mais papel. Agora, tentaria projetar barquinhos. Afinal, é preciso se adaptar. Boa semana!