[[legacy_image_342850]] O tempo era o longínquo ano de 1999. Os cabelos batiam nos ombros, e como grande parte dos adolescentes daquele ‘fin de siécle’, eu era músico de garagem e adorava escutar álbuns de rock enquanto esperava o bug do milênio. Parte da minha geração já convivia com certo saudosismo, embora existissem bandas interessantes em atividade. Mas o rock que nos interessava – e até hoje ainda me interessa – era o que já não existia. Uma ilusão da juventude: referências de décadas passadas. Na televisão, a MTV passava os clipes do momento e, de vez em quando, as bandas de outrora. O Guns’n’Roses era uma dessas bandas que estimulavam todo jovem a entrar para a música. O personagem mais interessante daquele grupo de figuras exóticas que formavam a banda era um guitarrista de cabelo encaracolado que cobria o rosto, como uma espécie de proteção, uma máscara, que escondia uma personalidade fugidia. A cartola conferia, em certo nível, um ar de mágico ou ilusionista, e como companhia, uma guitarra Gibson Les Paul – sonho de consumo de qualquer guitarrista do planeta. Aparentemente, era uma estética que privilegiava a introspecção, que mostrava que o mundo mais interessante era aquele da música, não o real. Os solos de guitarra se diferenciavam do estilo vigente na década de 80. Menos velocidade, menos notas e muito mais harmonia. Temáticas cristalinas e dramáticas em meio ao paradoxal timbre sujo e encorpado. Uma roupagem meio blues, meio rock – mas, definitivamente, pop. A forma era produzida para encaixar perfeitamente em uma categoria extinta hoje, um tal de rock mainstream. De toda forma, a partir dessa conotação, poderíamos afirmar até pouco tempo atrás que, entusiastas de qualquer outro estilo musical, por mais distante que pudesse estar, reconheciam a imagem icônica do personagem na guitarra. Faço um salto temporal, mais de 20 anos para frente. Noite do Oscar, 2024. De todos os resultados que se apresentaram entre as melhores produções cinematográficas do ano, o que mais me prendeu a atenção foi a apresentação da música I’m Just Ken, uma das temáticas sonoras do filme Barbie, 2023. O ator Ryan Gosling cantava e teve como acompanhamento uma presença um tanto inusitada: justamente o guitarrista Slash. No dia seguinte, me assustei com as matérias de sites noticiosos: “Quem é Slash? O guitarrista que tocou com Ryan Gosling no Oscar 2024”; ou, ainda, um título mais bizarro: “Ronaldinho Gaúcho dos guitarristas: entenda por que a participação de Slash em I’m Just Ken no Oscar não foi nada aleatória”. Confesso que tive um choque de realidade ao ler esses títulos. Eu me perguntei, afinal, quantos anos eu havia dormido e, de repente, acordara em uma realidade em que um personagem como esse precisa ter uma matéria explicativa. Ora, que espectador é esse que não reconhece uma figura tão óbvia? Afinal, Slash e guitarra são sinônimos, quase uma redundância – em algum dicionário de semiótica, creio que já tenha visto essas duas palavras juntas. Após esse primeiro choque, tive que cair na realidade e tentar interpretar os sinais do tempo. Ao que parece, existe, sim, uma parcela gigantesca de espectadores que nunca ouviu falar nessa figura e, talvez, não conheça uma série de outras. Me coloco em estado de observação. Há uma geração que assiste filmes, séries e documentários via streaming, em modo de exibição acelerada. Enquanto consomem essas produções, absorvem simultaneamente conteúdos programados também por uma estética de aceleração nas redes sociais, Instagram e TikTok, por meio de seus aparelhos celulares. Produtos audiovisuais em ritmos vertiginosos, estruturados para sustentar os poucos segundos de atenção que esse público pode dedicar. Dessa forma, com tantos estímulos à disposição, e sempre condicionados por uma lógica algorítmica de preferências – o sistema elenca o tipo de conteúdo que determinados usuários gostariam de receber – fica quase impossível observar qualquer tipo de construção única de realidade. O que se observa, na prática, é uma fragmentação total por meio de mecanismos de bolhas de interesse, que organizam a forma com a qual acessamos os produtos culturais. Pensar assim impediu de me sentir antiquado, pelo fato de não conseguir entender, no primeiro momento, qual a razão para uma matéria apresentando um personagem tão icônico quanto o guitarrista Slash. Nesse contexto, entendo os argumentos como uma primeira motivação para essa abordagem das matérias. Será que isso comprovaria a tese de que o rock está morto? Prefiro acreditar que não. Mesmo assim, olhando por um lado mais positivo, verifico que esse tipo de matéria poderia, inclusive, suscitar algum interesse nas novas gerações em decodificar a presença de ícones do passado. Talvez ainda haja tempo para um belo solo de guitarra. Boa semana!