[[legacy_image_270621]] “Alexa, bom dia!”. Comecei assim o último domingo. Enquanto tomava café, a voz robótica trazia uma curadoria de notícias relevantes, selecionadas automaticamente. O personagem Theodore, do filme Her (2013), tinha uma relação bem mais complexa com sua inteligência artificial (IA). “Ela não é apenas um computador...”, dizia o personagem. Nos acostumamos a esses mecanismos, mas a aproximação com o campo da imagem nos força a uma reflexão. Para contextualizar, proponho um delineamento histórico. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Deve ter sido uma surpresa quando a experiência físico-química do inventor Joseph Niépce conseguiu registrar a visão de uma janela, após oito horas de exposição, criando a primeira imagem fotográfica permanente, em 1826. Se pensarmos a partir da temporalidade histórica, podemos considerar como um processo relativamente rápido, ao compararmos com o tempo de produção de uma pintura, por exemplo. O tempo foi acelerado pela técnica fotográfica. A fotografia rompe com o protagonismo da pintura, em seu caráter de representação, e impõe uma relação técnica com o real. Uma ferramenta que articula a ilusão de objetividade. Sua pretensão documental difere das subjetividades da pintura – embora seu conceito de perspectiva artificial seja uma herança do Renascentismo. Esse descolamento provocaria uma ruptura no imaginário. De Niépce aos irmãos Lumiére, da estática ao movimento, a imagem técnica reconstruiu o efeito de real. Os impactos do inventivo século 19 seriam pano de fundo para as revoluções do século 20. Saltemos algumas décadas. A partir da câmera compacta, registrou-se a História, assim como os fatos e as visões pessoais da vida cotidiana. Tudo em imagem. A humanidade escolheu experienciar o mundo pela janela de Niépce – é extremamente simbólico que a primeira fotografia tenha sido de uma janela. Observamos hoje outras fragmentações por conta da tecnologia. O processo fotográfico analógico foi suprimido pelo digital. Antes, era preciso passar pelo laboratório de revelação, em uma sequência de banhos químicos, para então vislumbrar, no negativo, o registro vivenciado. Atualmente, o processamento automático faz com que a imagem seja decodificada no visor digital. E o tempo é acelerado novamente. Devemos observar, como Joan Fontcuberta pontua, que a trajetória da fotografia é de desmaterialização. Outros mecanismos ganharam espaço. O celular, por exemplo, assumiu um papel imensurável para a instantaneidade. Mais dinâmico que a câmera, permite que imagens sejam transmitidas ao vivo de qualquer lugar do mundo. Basta estar conectado à rede. Os drones, os memes, os aplicativos de geolocalização, as imagens-fluxo nas redes sociais, todos são formas de reinterpretação da realidade. A fotografia carrega um dilema shakesperiano: ser ou não ser o real, registro ou mimese – eis a questão. Ao observarmos a ótica de Jean Baudrillard, verificamos que o transbordamento de simulacros imagéticos criou infinitas representações – e dissimulações – do real. E quanto mais representações, mais distantes estamos do referente. Talvez, como contraponto, pautados pela ficção científica, possamos questionar que a saturação do real provocou a necessidade de acessar a não-realidade. Mas, notemos: isso não se limita à fotografia. A música, a poesia, linhas de programação de jogos de videogame ou uma ilustração, tudo pode ser feito mais rápido, com mais precisão técnica, e com menor margem de erro, pela IA. Portanto, não se trata de questionar a validade da nova tecnologia, mas, sim, a função do humano nesse contexto. Nos aproximamos, então, do pós-humanismo? Quanto à pós-fotografia, o problema se dá pela intrincada tentação de realismo. Nessa provocação, verificamos que não há diferença objetiva de linguagem, pois algumas imagens feitas por IA atingem uma indistinguível verossimilhança. O fato é que nenhuma imagem é real, pois a realidade só se traduz a partir da vivência do registro. A IA aniquila a experiência. No fotojornalismo, há uma convenção ética que pressupõe a imagem enquanto documento factual. Mas e quando não for possível verificar a procedência? Adentraremos, então, a hiper-realidade, em que real e ficção se misturam. Talvez já estejamos nessa rota. É interessante o cuidado que alguns artistas e fotógrafos demonstram ao utilizar esses aplicativos. As produções carregam a advertência: “Esta imagem não é real”. Ora, em 1929, René Magritte já nos alertava sobre isso com o aviso: “Isto não é um cachimbo”, em sua obra A Traição das Imagens. Pergunto: existe alguma imagem real? Penso que é preciso refletir sobre possibilidades de IA, mas também sobre a fotografia. Ao que parece, a linguagem tornou-se ciclicamente anacrônica, de forma a possibilitar que um sistema algorítmico abstrato produza artificialmente imagens. Se a fotografia registrou tudo que podia ser fotografado, cabe à IA produzir os registros não fotografáveis, a partir das infinitas referências da dimensão das imagens. A fotografia rompeu o tempo. Hoje, a fratura é no espaço. Por ora, atentemos para qual janela escolheremos olhar. Boa semana!