(Pixabay) Uma gota de chuva escorria pela parede envidraçada do escritório. Era noite, e na superfície transparente, diferentes dimensões estavam sobrepostas. As luzes da cidade riscavam traços luminosos descompassados pelo vidro; em contraponto, no reflexo, a mão de um homem segurava um copo plástico de café esfumaçante. Havia também uma dimensão invisível. A expressão espelhada de seu rosto revelava alguém imerso em um angustiante conflito interno. Chegara ao limite. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Horas antes, naquele dia, o homem havia participado de uma reunião interminável. Enquanto o gerente falava, ele desenhava e rabiscava no caderno, dando a falsa sensação de estar interessado no assunto. No entanto, era bombardeado por expressões que lhe irritavam profundamente. Logo de início, o chefe substituía a palavra mentalidade por ‘mindset’. Em vez de usar o termo orçamento, ele falava ‘budget’. Os comentários ou impressões sobre o desempenho da equipe nos projetos eram ‘feedbacks’. Objetivos eram ‘targets’; ideias se transformaram em ‘insights’. A análise comparativa de referências era ‘benchmarking’. Desperdício de recursos por sobreposição de decisões era ‘overlap’. Acompanhamento era ‘follow-up’. Os olhos do homem reviravam a cada estrangeirismo. Para ele, era surreal pensar que a língua de Camões poderia oferecer dezenas de sinônimos plausíveis para cada termo americanizado. Aquilo era apenas o começo. Todas essas palavras surgiram no início da apresentação, para explicar os tópicos que seriam tratados. Então, uma dinâmica foi proposta da pior maneira possível - ao menos, para aquele sujeito esgotado. A ideia parecia bastante simples: foi pedido que os colaboradores escolhessem uma foto pessoal antiga, que de alguma forma havia marcado suas vidas. Eles também precisariam comentar brevemente. Esse processo, o chefe chamou de ‘icebreaker’ - sim, para quebrar o gelo. Com pouca paciência, procurou as imagens no álbum do celular. A formatura do filho, o seu casamento, uma viagem em família, um aniversário. Encontrou então, um registro antigo, da época em que queria ser desenhista e trabalhar com artes visuais e ilustrações. Na cena, ainda jovem, posava sorridente mostrando duas obras. Os colegas de trabalho apresentavam fotos e histórias enquanto o chefe desatento olhava o celular. Na sua vez, foi objetivo: “essa é da época em que eu ainda sonhava”. Indiferente, o chefe agradeceu a apresentação e começou os assuntos importantes. Após a dinâmica, foram mais algumas torturantes horas de ‘deep dive’, ‘tasks’, ‘ASAP’, ‘win-win’, ‘same boat’. O objetivo da reunião era cobrar mais desempenho e produtividade; algo que poderia ser resolvido em um e-mail. Quando tudo terminou, o homem tomava café sozinho, encarando seu reflexo na superfície envidraçada. Não se reconhecia. O chefe apareceu puxando assunto: “Deixei o time falar para manter o clima leve. Evitar o ‘burnout’ é uma ‘top priority’. Foi ótimo”. O homem largou o café, pegou sua mochila e saiu sem olhar para trás. Do elevador, encarava o chefe, que não entendeu nada. Enquanto a porta fechava, disse: “I’m out”. Boa semana!