(Imagem gerada por IA) O dia começava com o movimento acelerado da estação. Pelas ruas da metrópole, veículos passavam apressados pelo asfalto seco. Era cedo, ainda estava escuro, mas já havia fumaça e ruído. A cidade despertava. Centenas de pessoas caminhavam de forma mecânica por calçadas e avenidas. Os passos se repetiam em uma sincronia alienante. O sol nascia por trás das nuvens e projetava sombras humanas disformes no chão cinzento. Uma cena corriqueira que, no entanto, causava certo estranhamento: era como se a projeção de suas silhuetas acorrentasse as pessoas à dinâmica urbana. Estavam presas à rotina, imersas em uma implacável espiral cotidiana. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Um senhor estava parado na escadaria de acesso da estação. As mãos afrouxavam o nó torto da gravata vermelha. Tinha uma expressão de cansaço; os olhos fundos evidenciavam sinais de esgotamento. Como Sísifo, parecia condenado a repetir o ciclo incessante da cidade. Em meio a dezenas de pessoas que se amontoavam, desviando umas das outras e seguindo seus caminhos, ele acendia um cigarro e observava o amanhecer. Na área externa da estação, havia árvores e plantas que contrastavam com a textura opaca do concreto. E era neste fragmento de natureza que seus olhos pareciam se perder. Um pássaro pousava em um galho. O peito amarelado revelava sua espécie. Era um bem-te-vi. Seu canto era um respiro de vida em meio ao ensurdecedor barulho da metrópole. Por alguns instantes, acompanhava o pássaro e parecia surpreso ao perceber que ninguém mais havia reparado no animal. Estava sozinho no meio da multidão. Naquele momento, o homem se desligava do mundo. Ele esquecia o horário e se deixava levar pelo canto. Lembrava da infância e imaginava a chuva que seria atraída pela melodia. Pensava em tudo o que fez e no que deixou de fazer. Na escadaria da estação, lembrava dos pretéritos imperfeitos e dos caminhos subjuntivos que condicionavam sua vida. Se pudesse. Se lembrasse. Se tentasse. Se corresse. Se ligasse. Se ficasse. Se insistisse. Se falasse. Se conseguisse. Se houvesse tempo. Se arriscasse. Se pensasse. Se partisse. Se chovesse. O céu se fechava. As pessoas na estação passavam como vultos em torno do homem. Mas ele não escutava nada além do pássaro. De nada valeria chegar a tempo nos compromissos se, para isso, perdesse aquele breve canto. Queria assistir ao bem-te-vi antes que voasse livre e desaparecesse na cidade labiríntica. O pássaro terminou seu espetáculo e se lançou planando no espaço em busca de outros lugares, outras plantas, outros cantos. O homem voltava à realidade. A vida era o que era. Sem concessões e sem voltas. O relógio no pulso indicava cerca de dez minutos de atraso. Perdera o trem, não a coragem. Não podia controlar o fluxo do tempo, mas seu rosto estava diferente: mais vivo. A chuva começava a cair; ele ajeitou a gravata, jogou fora o cigarro e seguiu seu caminho. Boa semana!