(Imagem ilustrativa/Pixabay) A avenida movimentada contrastava com qualquer tipo de prática reflexiva. Era segunda-feira, por volta das 7 horas da manhã, e estava próximo à uma estação de metrô. Pedestres caminhavam em fluxo. Ninguém se olha. Ninguém se encosta. O ritmo acelerado da vida cotidiana impede que as pessoas pensem em algo que não seja sua própria rotina. Na maioria dos que passavam, noto que os fones de ouvido, em volume máximo, tentavam anestesiar a ensurdecedora frequência sonora de trânsito e buzinas que rebatiam nas frias paredes de concreto dos edifícios. Alguns diriam que é impossível haver alguma poesia em meio à cadência caótica de uma segunda-feira de manhã. Outros, talvez, discordem. Mas em frente à uma drogaria, próximo a um ponto de ônibus, um homem vendia alguns livros. E isto, por si só já é um argumento e tanto para esta discussão. O fato é que os livros ficavam jogados no chão, em cima de uma toalha toda amassada. Para a maioria das pessoas, aquilo parecia ter um aspecto meio sujo, ninguém parava para ler ou comprar. Eram títulos dos mais variados. Havia pilhas de livros bagunçadas de autores diversos, Lacan, Kafka, Orwell, Agatha Christie, Lovecraft, Shakespeare, Mary Shelley, Júlio Verne, uma série de revistas da Turma da Mônica, e uma sequência de coletâneas de diversos poetas: Fernando Pessoa, Baudelaire, Neruda e Leminski. Os livros pareciam ser de segunda mão, o que ajudava a garantir um preço mais acessível. Porém, poucas pessoas paravam. A maioria passava reto; isso se não houvesse alguém que tropeçasse em algum dos títulos. Naquele dia, eu estava uns 15 minutos adiantado, e enquanto olhava as capas de jornais numa banca próxima, reparei que um homem de barba bagunçada com roupas largas e surradas, que carregava uma caixa de papelão com algumas bugigangas, parou em frente ao vendedor de livros, agachou na altura dos produtos e foi folheando um livro e outro. As pessoas que passavam a sua volta nem notavam sua presença. Era apenas mais um personagem fantasmático na engrenagem mecânica da cidade. O homem lia de forma compenetrada as páginas de um livro. O vendedor perguntou se ele queria comprar algo, mas o homem ignorou e continuou a ler. De repente, um surto ensandecido: “Morreu o periquito! A gaiola vazia esconde um grito”. Em meio à multidão na calçada, algumas pessoas se assustaram com a mensagem aparentemente intimidadora. O trecho estava em um livro de capa rosa que o homem tinha em mãos, e de repente, achou que seria um bom momento para declamar em tom apocalíptico. Mas a poesia, de autoria de Paulo Leminski, não parou o trânsito, nem o ritmo da cidade. As pessoas continuavam a passar e a rotina imutável dos minutos acelerados também seguia seu fluxo. No caminho do trabalho, no intervalo do café, e mesmo na hora do almoço, nada muda, a massa está sempre de passagem indo a algum lugar, nunca observando as fragmentações do trajeto. O homem sacou outro trecho do mesmo livro: “Eu sou como eu sou. Presente. Desferrolhado indecente. Feito um pedaço de mim.” Um verso de Cogito, de Torquato Neto. As pessoas passavam encarando o homem com expressão de julgamento. Talvez o vissem como um louco ou algo assim. Quem ousa interromper o ritmo incontrolável do tempo, para falar este tipo de coisa? Talvez fosse um poeta maldito em versão hipermoderna. Mas pela percepção da multidão, parecia ser apenas mais um maluco. Não há espaço para poesia ou qualquer outra forma de reflexão quando se caminha à beira do abismo das redes sociais, estações ou viadutos. Um funcionário da farmácia interrompeu o excêntrico recital e pediu que o homem parasse com a gritaria, já que incomodava os clientes. O vendedor de livros não sabia o que fazer, afinal, ele não podia expulsar um homem que estava na rua. O poeta colocou os livros no lugar, ajeitou a camisa, e se despediu. Antes de partir, despejou um último verso, um improviso levemente embriagado, que parecia desabafo: "Vou embora. Se ninguém quer ouvir, não adianta mais falar nada". Sem graça, o vendedor deu o livro para o homem. Ele agradeceu, guardou na caixa de bugigangas que carregava, e sumiu ao virar uma esquina. Para as pessoas que passavam, a poesia que o homem lia devia incomodar mais do que o barulho da cidade. Parece não haver mais tempo para experiências estéticas que incomodem o roteiro das horas. Meus quinze minutos de vantagem sobre o relógio se esgotavam. As pessoas seguiam seus trajetos. O funcionário da farmácia e os clientes respiravam aliviados com a partida do esdrúxulo poeta, e o vendedor voltava a organizar os livros na calçada. Boa semana!