As cores se misturam num último suspiro solar antes do crepúsculo acinzentado (Matheus Tagé) Fim de tarde. O mar bate agitado nas muretas. O sol começava a diluir o laranja vívido em uma textura azulada de outono. O vento fino acrescentava nuvens escuras ao cenário bucólico. As cores se misturam num último suspiro solar antes do crepúsculo acinzentado. Crianças brincavam em volta da estrutura colorida dedicada à prática de parkour. Um casal caminhava com um cachorro peludo preto e branco que pulava nas pessoas que passavam. Esportistas de fim de semana corriam pelo meio fio, próximo aos carros. Alguns ciclistas encostaram as bicicletas na mureta para ver o sol se pôr; e ao lado, pescadores abriam latas verdes de cerveja, e brindavam os cestos vazios dos peixes que não pescaram naquele dia. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Enquanto alguns preparavam os celulares para registrar o sol poente, um homem puxa a vara de pescar apoiada entre uma cadeira de praia e um isopor, e salta o muro de rebentação. Ele pretendia uma última tentativa para a pescaria, e de quebra, um ângulo mais exótico para fotografar o fim de tarde. Ele caminha por entre as pedras escorregadias que criam uma espécie de ponte para lugar nenhum, no meio do mar, um mirante rochoso para o espetáculo solar. Porém, com o cair de tarde, o vento agitava o mar, e as ondas aumentavam de volume; o que provocou a preocupação dos colegas de pesca. Um amigo gritava: “Sai daí, você vai tomar um caldo!”. Um outro colega, que tomava cerveja, brincava: “Você está velho para essas coisas, se escorregar vai me fazer ir até aí te buscar!”. Afinal, queriam que desistisse, mas o pescador caminhava determinado sobre a escorregadia superfície sinuosa, escorando na vara de pesca, enquanto a ondulação parecia preparar uma armadilha para um tombo inevitável. Apesar dos avisos, o homem conhecia bem a maré. E seguia firme caminhando rumo ao limite das pedras. Durante o trajeto, parecia cantarolar para o mar, a fim de acalmá-lo. Ele parou em uma ponta de pedra, e ficou olhando o horizonte, seduzido pela cena, pelo mar e o vento, como se estivesse congelado pela figura mítica de uma ninfa. Então, prendeu a vara de pesca entre as pedras, e sacou o celular do bolso. Com um olhar de dúvida, encarava a câmera do aparelho, e depois o horizonte – comparando as duas perspectivas. Talvez esta comparação fosse injusta. Em um gesto pragmático, guardou o celular e voltou a mirar o céu. Certamente, por algum motivo qualquer, deu preferência à ótica orgânica, em detrimento de registrar fotograficamente o que via. A imagem fotográfica reflete um sacrifício crucial do fotógrafo; ela exige que a vivência seja interrompida por um instante em que o autor descola o olhar sobre o mundo, e se submete a enxergar através da câmera fotográfica. A perspectiva técnica recorta a visão por milésimos de segundo - um fragmento - mas ainda que seja tão breve este momento, o homem parecia não querer abrir mão. Atraído pela realidade, o pescador escolheu não fotografar, para não perder nem um segundo daquilo que via. Deve ter desejado que o tempo parasse. Um relato visual registrado apenas no imaginário; aquele final de tarde nunca mais se repetiria; mas estaria gravado na memória. A cena era estranhamente poética, e para contribuir com a atmosfera, no fone, eu escutava uma versão da música ‘O vento’, no novo trabalho lançado pelo Boca Livre, o excelente álbum Rasgamundo. "Posso ouvir o vento passar. Assistir à onda bater. Mas o estrago que faz. A vida é curta pra ver”, diz a canção. Conforme o sol se encerrava por trás dos morros e prédios que performavam a cenografia daquela tarde, o homem ia retornando do transe. De repente, enfiou a mão no bolso da camisa, e retirou um papel amassado. Ele desdobrou e parecia ler – ou talvez, reler. Então, rasgou o papel em pequenos pedaços, e deixou que o vento os levasse ao mar, para que nunca mais pudessem ser lidos. O sol encerrava o dia, e o homem parecia retornar à realidade. Olhou a distância que percorrera entre as pedras, e começou a caminhar para o calçadão lentamente. O vento esfriava a temperatura, e os respingos das ondas pareciam mais complicados de assimilar. Alguns turistas fotografaram os raios solares em contraste com o céu que escurecia. Com o cair da tarde, os pais interrompiam as brincadeiras, e apressavam as crianças para calçar o tênis e se preparar para ir embora. As pessoas na calçada retomavam seus caminhos; e o pescador se aproximava da mureta para pular. Os amigos questionaram sobre a foto não feita, e o homem respondeu que tentaria novamente outro dia, em qualquer outro pôr de sol.