(Imagem ilustrativa/FreePik) De manhã, um homem caminha pela cidade com a cabeça baixa. Por instinto – ou pura sorte – ele desvia de pessoas, bicicletas, carros e postes, sem nem mesmo olhar: como se tivesse um sensor de aproximação. Enquanto atravessa uma avenida, os olhos permanecem atentos à tela do celular. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Os dedos percorrem a superfície do aparelho de cima a baixo. Ele responde rapidamente às mensagens atrasadas da semana, lê e-mails, pesquisa algumas informações no navegador e ainda encontra tempo para abrir um link de um vídeo engraçado que um amigo enviou. Enquanto espera outro semáforo de pedestres abrir, carrega três gráficos no aplicativo de inteligência artificial e pede a elaboração de um relatório sobre os dados. Em instantes, a análise está pronta. Ele faz uma rápida revisão e envia por e-mail para o chefe. Sua mente parece elaborar mil funções simultaneamente. O tempo que seria necessário para realizar aquelas tarefas com atenção é flexibilizado dentro de uma nova temporalidade. Há uma lógica de velocidade que o envolve, uma espécie de exigência ao chamado da máquina que ele precisa atender o tempo todo. Com a tela na palma da mão, não olha para mais nada. Ainda é cedo e, certamente, a sequência de atividades e estímulos comprimidos dentro de poucos minutos faz com que a dinâmica do tempo natural seja obliterada. A cadência do relógio, que deveria organizar a rotina, é suprimida por uma métrica desfigurada, em uma progressão de instantes acelerados pelas demandas da sociedade hipermoderna. Antes mesmo de chegar no trabalho, o homem já está exausto. Afinal, em menos de uma hora, resolveu algumas dezenas de problemas que poderiam preencher uma semana inteira de atividades. Próximo ao escritório, o sujeito entra em uma padaria para tomar café. Cansado, coloca o celular sobre a mesa. Ele esfrega os olhos, como se tentasse se descolar da dimensão virtual e voltar à realidade concreta. Para esfriar a cabeça, encara seu reflexo na lateral envidraçada da padaria. Logo, seu olhar atravessa a transparência do vidro para enxergar a cidade. Através da nova tela, observa uma senhora com um cachorro malhado em preto e branco e um garoto com uma bola de futebol caminhando com o pai. Do outro lado da rua, um homem abre a banca de jornal, enquanto alguns jovens passam visivelmente embriagados depois da noitada. Ali perto, uma moça entra numa farmácia, próxima a um muro pichado onde um gato se equilibra. A vida parecia diferente sem as urgências digitais. Era o tempo natural que pautava tudo. O café estava quente e uma fina linha de fumaça rodopiava saindo da xícara: uma distração que o ajudava a evitar o aparelho. O sujeito queria apenas mais alguns instantes de paz. Depois do último gole, largou a xícara e resolveu olhar as notificações. Respirou fundo e, então, se deu conta do equívoco. Ainda era domingo. Boa semana!