(Matheus Tagé) O termômetro marcava 37ºC. O sol parecia fazer o asfalto da rua derreter, de forma a criar uma ilusão de ótica que simulava um processo de evaporação. O ar tinha um gosto cinzento de fumaça, uma textura empoeirada que dava uma sensação incômoda na garganta. Aliás, era impossível respirar fundo sem sentir a fragrância amarga de centenas de partículas estranhas invadindo as narinas. No cruzamento de uma larga avenida, uma multidão de pedestres aguardava o fechamento de um semáforo, enquanto centenas de veículos entupiam a via. Numa esquina, uma figura bizarra se aproximava. Ao chegar por trás das pessoas na calçada, deu um grito: “É o fim do mundo!”. Algumas pessoas tomaram um susto com o escandaloso personagem. Ora, no meio da rua, um trânsito quilométrico, um calor absurdo, e ainda aparece um sujeito barbudo com um monte de trapos pendurados gritando. Não é todo mundo que tem paciência hoje em dia. Um homem deu uma bronca no profeta apocalíptico e mandou ele sair de perto. O personagem entendeu o recado, disse que ia embora, mas afirmou que depois não poderiam dizer que não foram avisados. Era um sujeito maltrapilho que parecia ter vindo do universo de Mad Max. Um pano branco encardido lhe cobria dos ombros até a altura dos joelhos. Ele usava uma camisa toda suja e esfarrapada com calças largas e rasgadas. Os pés estavam descalços; e apesar do calor que queimava o chão, ele parecia estar calejado. Um homem, que estava no balcão de uma padaria próxima ao local, resolveu intervir. “Dá uma dose para ele, Bigode!”, brincou, falando com um senhor que estava atendendo do outro lado do balcão. O profeta ignorou a brincadeira e seguia pela calçada gritando: “O apocalipse está a caminho! É o fim”. Enquanto pregava o fim dos tempos, uma moça passava com uma garotinha a caminho da escola. A menina carregava um cachorrinho de pelúcia, junto com uma mochila azul claro de rodinhas, e pela expressão, parecia ter ficado assustada. Ela era tímida e chamou a mãe para perto para falar algo no ouvido. A mulher respondeu dando risada: “Não, filha, fica tranquila, o homem é doido”. Apesar dos excessos do homem que gritava, era difícil estabelecer um contraponto, já que a percepção climática daquele dia justificava suas profecias. Era uma sensação de estar vivendo em um contexto apocalíptico de verdade. Por um momento, sob aquele calor e a sensação de um ar insalubre, tive a percepção de que, talvez a pessoa menos louca naquele contexto fosse o próprio profeta, já que alertava um problema real, enquanto as pessoas apenas ignoravam e seguiam normalmente com suas vidas. A conversa das duas continuava. A mãe explicava que, a julgar pela aparência, o homem parecia morar na rua há muito tempo. Ela disse que, vivendo totalmente sozinho naquelas condições precárias, naturalmente era possível que enlouquecesse. O profeta foi até um canto da calçada e se sentou no chão, em frente a um estabelecimento que estava de portas fechadas, com uma placa de ‘aluga-se’. Porém, mesmo parado, ele tinha um aspecto extremamente nervoso e agitado. Visivelmente perturbado, continuava gritando e falando sozinho. Ele esfregava as mãos no chão e as costas se contorciam, batendo contra a porta da loja, fazendo um barulho desagradável para todos da redondeza. A menina, que antes parecia assustada, mudou a expressão. De repente, havia um pouco de pena do homem. Ela falou no ouvido da mãe novamente; a mãe riu e perguntou: “Tem certeza?”. A menina mexeu a cabeça fazendo um sinal de positivo. Foi então que as duas se aproximaram do homem, e a menina ofereceu o cachorro de pelúcia. Ao que parece, o homem era tão solitário e aborrecido, que talvez a companhia do cachorro pudesse ajudar a recuperar o eixo. O homem acalmou por um instante e aceitou o cachorrinho. A mãe e a menina seguiram seu caminho. Finalmente, alguém parecia ter resolvido o problema do andarilho solitário. A rua, enfim, estava pacificada, apesar do clima terrível de calor fora de época. O homem, então, se levantou e com o cachorro de pelúcia nas mãos, foi até a esquina, passou por trás dos pedestres e começou outra gritaria: “É o fim do mundo!”. As pessoas tomaram um susto, uma senhora de idade xingou o homem, e mandou ele ficar quieto. O cachorro acalmou por alguns instantes o ímpeto apocalíptico do profeta improvável, mas não foi suficiente para calar as vozes de sua cabeça. Doido ou não, ao menos a menina fez uma boa ação. Afinal, o profeta já não teria que enfrentar o fim do mundo totalmente sozinho, agora ele tinha uma companhia. Boa semana!