O lado oculto da Lua (Divulgação/Nasa) Da janela lateral da cápsula Orion, da missão Artemis 2 — nome da deusa grega irmã gêmea de Apolo, na mitologia —, vê-se um pequeno círculo azul na escuridão. Trata-se da Terra, o mais bonito dos planetas, como diz a canção de Beto Guedes. As imagens produzidas por astronautas em passagem ao redor da Lua constroem uma perspectiva única de curiosidade e estranhamento. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! É inevitável pensar que toda a história humana está comprimida naquela forma que flutua no espaço infinito, suscetível a variáveis cósmicas incontroláveis. Essa impermanência é estruturada por uma progressão de instantes: o tempo. Na canção Time, do álbum The Dark Side of the Moon (1973), da banda britânica Pink Floyd, há uma provocação: “O sol é o mesmo, de uma forma relativa. Mas você está mais velho”. Múltiplos tempos coexistem. Nas imagens, temporalidades e complexidades se apresentam em fragmentos. O distanciamento e a compressão do mundo na janela fotográfica provocam uma contemplação incômoda e instigante — o punctum, de Roland Barthes. A viagem espacial é um desejo antigo e vai muito além da Guerra Fria. Em 1902, George Méliès lançou o filme Le Voyage dans la Lune (Viagem para a Lua), marco inicial da ficção científica no cinema. Apesar das limitações técnicas da época, a obra revela criatividade ilimitada no roteiro e nos efeitos especiais. O cineasta propõe uma jornada pelo espaço, com uma curiosa alunissagem em stop motion, criaturas lunares ameaçadoras e um retorno improvável à Terra. O filme pode parecer um teatro filmado, mas é imersivo pela forma como tensiona a imaginação. Na última semana, os astronautas da missão Artemis 2 alcançaram o lado oculto da Lua — um feito que cria uma espécie de fratura na realidade. É como vislumbrar o verso de um espelho, um não-lugar entre o vazio e o todo. Algo completamente distante da experiência comum, já que a rotação lunar, sincronizada com a da Terra, impede que vejamos esse lado. Com os registros, surge um paradoxo da imagem: fotografar o que não é fotografável, como se atravessássemos a fotografia para enxergar através dela. A equipe ficou cerca de 40 minutos sem contato com a Terra — uma solidão profunda que remete à canção Space Oddity (1969), de David Bowie. Nela, o astronauta Major Tom flutua no espaço e percebe que as estrelas parecem diferentes, até constatar: “Planet Earth is blue, and there’s nothing I can do”. As imagens nos desestabilizam porque evidenciam nossa pequenez diante da imensidão do universo.