(Imagem gerada por IA) Na rua movimentada, um homem observa o mundo pela tela do aparelho celular. Alheio à cidade pulsante, não viu um garoto que deixara cair um sorvete no chão, nem o cachorro que se lambuzava com o creme derretido. Também não observou uma moça de bicicleta que quase atropelou um senhor de bengala ao avançar a faixa de pedestres. Tampouco escutou um músico de rua que tocava blues com um violão elétrico, acompanhado de uma caixa de som e um playback em Mi maior, em frente a um mercado. Anestesiado pela realidade digital, não viu uma pomba passar em voo rasante, derrubando um pacote de pipocas de uma menina no chão. Rapidamente, centenas de pombas ocuparam a calçada. Ele seguia indiferente à cena. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nem atentou para as gravações do filme que era produzido no belíssimo Hotel Atlântico, no Gonzaga – embora tenha curtido publicações sobre o assunto no Instagram. Enquanto a arquitetura centenária dava vida à narrativa cinematográfica, ele seguia hipnotizado. Tinha a sensação de que todas as imagens do mundo estavam ao alcance de suas mãos. O mundo na tela; tela-mundo. O algoritmo organizava seu roteiro. Naquela tarde, o homem planejava caminhar na praia, mas, no trajeto, foi engolido pela realidade hiperconectada. E-mails de trabalho, mensagens em grupos de WhatsApp, notícias, notificações de aplicativos e o fluxo infinito das redes sociais. Tinha a expressão de um sujeito errante e perdido, como se nem lembrasse para onde ia. No cruzamento, interrompeu a caminhada por instinto, acompanhando a cadência das passadas da multidão. Com a cabeça e os ombros caídos, atravessou a rua com os olhos em uma mensagem de e-mail que precisava responder. Estava tonto, sufocado, exausto; mas ainda assim, permanecia condicionado pelo ritmo da tela. Em um breve intervalo das mensagens, o homem conectou o fone que planejava usar durante a caminhada e acionou um aplicativo de música. Enquanto procurava a trilha certa, era acometido por novas notificações. Amigos, colegas e mais cobranças do trabalho. Era impossível se desligar da incontrolável dinâmica da vida em rede. Logo estava distraído novamente em uma rede social, enquanto pesquisava algumas informações para responder uma mensagem. Estava tão obcecado em atender ao chamado da máquina que somente após encontrar os dados que procurava para complementar uma resposta de e-mail, notou que a bateria do aparelho estava acabando. A porcentagem de carga diminuía a cada palavra que digitava e a cada aba que abria. Não haveria tempo para escrever. O celular apagou. O homem ergueu a cabeça e encarou o horizonte. À sua frente, o mar fluía de forma incontrolável e imprevisível. O vento salgado lhe tocava o rosto. Um balé de gaivotas riscava silhuetas no céu vermelho arroxeado do início da noite. As ondas deslizavam envolvendo seus pés, apagando pegadas, rastros e memórias na areia. Respirou fundo, tomado por uma sensação atlântica de liberdade. Boa semana!