(Matheus Tagé/Arquivo AT) Uma espera de 15 minutos, desde que havia chamado um carro pelo aplicativo. Era uma sensação angustiante, olhar a tela do celular e ver a representação gráfica do automóvel se movendo tão lentamente pelas ruas das redondezas. A urgência do cotidiano, que parece acelerar os ponteiros do relógio, provoca ansiedade; pensava que não seria possível que demorasse tanto para um carro chegar. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Enquanto respirava fundo, meu enquadramento visual apontava em plongée; no primeiro plano, mirava a tela do celular na palma da mão; e ao fundo, o pé batia inquieto no chão. O carro finalmente se aproximava pelo mapa virtual. Na esquina, um pequeno congestionamento. Uma fila de veículos se aglomerava e, por consequência, a euforia sonora de buzinas azucrinantes. Comparo a placa na tela com o primeiro automóvel da fila. Era o carro da minha viagem. O motorista havia parado em fila dupla, o que causou um certo alvoroço entre motoqueiros e outros condutores que tinham que desviar. Entrei no carro e, simultaneamente, um outro motorista passou pela esquerda xingando o piloto de tudo que era nome - sobrou até para a mãe dele. Fiquei meio constrangido quando notei que se tratava de um idoso. Enquanto o caos tomava conta, com o carro ainda parado, o senhor virou para mim e se apresentou. “Bom dia, sou o Adauto. O pessoal hoje em dia não tem mais paciência, né?”, comentou, enquanto o ruído do trânsito continuava. Concordei. Então, engatou a primeira e, finalmente, o carro saiu do lugar; para alívio do fluxo naquela manhã. Tentei imaginar a idade dele, mas não foi necessário, o sujeito era extremamente comunicativo. Ele falou que trabalhou como taxista até se aposentar; e que completara 80 anos recentemente. Do nada, lembrou que sua mãe, vinda do interior, nunca tinha visto luz elétrica, e ficou surpresa quando chegou na cidade grande; mas para ele, era tudo natural, pois se considerava uma pessoa moderna. Nessa hora, seu celular apitava notificações incessantes, e me mostrou e tela com centenas de aplicativos. “Sempre me dei bem com a modernidade, o segredo é a adaptação”, afirmou convicto. Era uma figura engraçada, enquanto falava, o velocímetro não passava de 20km/h, o que contrastava com a dinâmica do trânsito à nossa volta. Motoristas impacientes, caminhões, ônibus, motos, todos passavam voando pelo carro. Alheio a tudo, o homem continuava sua história. A princípio, eu estava impaciente, mas fiquei sem jeito de interromper meu interlocutor. Ele começou a falar que, embora aposentado, foi intimado pela esposa a continuar trabalhando. No caso, ele conta que havia duas razões; uma, pelo complemento da renda, outra, pelo fato de que a mulher não aguentava mais ele em casa o dia inteiro. Ele relembrou que frequentara um seminário católico quando jovem e quase foi padre, mas teve que desistir quando descobriu que não poderia se casar - na época, já estava praticamente noivo. “Ninguém havia me explicado este detalhe antes”, contou enquanto gargalhava. Dei risada. E afinal de contas, ponderei que, já que estava atrasado, e fatalmente, o Adauto não era nenhum piloto de Fórmula 1, ao menos, ouviria algumas boas histórias. Lembrei de uma reflexão do poeta Flavio Viegas Amoreira, em recente crônica, em A Tribuna: “Viver é então a descoberta do infinito no cotidiano, o miraculoso no prosaico aparente”. O personagem tinha historicidade. Alguém que passa pelo mundo, ao mesmo tempo, em que é continuamente arrastado pela maré. “Fiquei preso outro dia num restaurante japonês, você acredita?”, começava outra história. Ele contou que havia ido ao shopping com a esposa, mas estava tão atordoado com o barulho e a quantidade de gente que, na hora de almoçar na praça de alimentação, ao invés de entrar na churrascaria, errou de restaurante. Quando deu por si, estava preso no meio da fila do bufê de “peixes crus”, como ele se referiu à culinária japonesa. “Eu tive que pagar uma nota pra comer só salada”, lamentou. Apesar das situações inusitadas, ele comentou que gostava de dirigir. No meio da loucura do trânsito e da fluidez da cidade, fica claro que nada desestabiliza sua calma. De repente, o celular vibra. Ele se anima, mas como estava conduzindo, disse que depois veria a notificação. “Deve ser o tigre, meu amigo”, afirmou sorridente. Perguntei do que se tratava. “Eu vou ganhar uma grana com esse jogo do tigrinho”, afirmou. Alertei que esses jogos são pura enganação. Mas ele respondeu: “Deixa comigo, eu sempre dou um jeito, rapaz”. Chego ao destino; desci do carro e insisti para ele tomar cuidado com os tigres. Ele deu risada. Eu estava uns 20 minutos atrasado e o Adauto seguia para a próxima enrascada a 20km/h. Boa semana!