Primeiro longa da história filmado integralmente com câmeras IMAX (Reprodução) O conceito de deslocamento é um motor narrativo universal. Christopher Nolan desenvolve o filme A Odisseia (2026) como um road movie marítimo e, apesar do rico manual de instruções homérico, o diretor recorre a suas próprias obsessões. Na adaptação, o cavalo de Troia é a bomba atômica de Oppenheimer; um subterfúgio que molda um protagonista envolto em remorso. No filme, Odisseu parece um veterano de guerras atuais. O estresse pós-traumático estrutura sua complexidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O diretor busca converter um mundo místico em algo plausível. Assim, impõe uma racionalização constante, flexibilizando os limites do fantástico. Porém, o realismo escapa por razões óbvias: a existência do ciclope, monstros marítimos, lestrigões, sereias, feiticeiras, o mundo dos mortos e a deusa Atena, ainda que, ao final, sua presença seja questionada por um precedente perspicaz – uma surpresa que pode perturbar espectadores fiéis à partitura original. Os deuses, que seriam fundamentais, atuam apenas na dimensão abstrata da crença. O filme atinge a máxima potência da linguagem audiovisual. Nolan faz uma versão do poema épico homérico, não uma tradução – e toda tradução é uma traição. Há questões anacrônicas, escolhas duvidosas e passagens condensadas em função do ritmo da narrativa hollywoodiana. Um exemplo é o caso do ciclope Polifemo e a exclusão de um dos jogos de palavras mais interessantes da literatura. O desfecho da sequência seria fundamental para desvelar ambiguidades do protagonista e seu destino. Movido pela lógica de compressão estrutural, Nolan também usa a personagem Calipso como amálgama de elementos ausentes – Nausícaa, os feácios e os lotófagos. A atriz Samantha Morton faz um trabalho de profundidade como Circe. Por outro lado, há um exagero cômico na representação de Agamenon, que parece um Darth Vader da Era do Bronze. A trilha sonora de Ludwig Göransson enfatiza a textura épica e funciona como um elemento sensorial fundamental para a ambiência. A direção de fotografia e a captação em IMAX constroem uma atmosfera densa e exploram habilmente a escala das locações. Os grandes planos trazem o mar como dispositivo dramático. A montagem não linear sustenta um ritmo vertiginoso. Quando Odisseu é amarrado ao mastro do navio, para escutar o canto das sereias, o ator Matt Damon entrega uma atuação visceral. Outro destaque é o último ato com o arco: Odisseu encaixa a corda e a puxa antes de disparar, gerando uma inquietante tensão sonora, em uma mise-en-scène muito bem construída. No entanto, Nolan exagera no didatismo; há alguns diálogos excessivamente expositivos em que explica, desnecessariamente, a moral da história. Essa narrativa milenar foi editada coletivamente pela oralidade por séculos até seus primeiros registros, passando por incontáveis representações artísticas e, depois, por diversas adaptações audiovisuais. Nolan é mais um contador de histórias que imprime nuances de linguagem e problemáticas de seu tempo à trama. A Odisseia é uma sedutora travessia pelo desconhecido e, paradoxalmente, uma intrincada jornada interior. Boa semana!