Jaafar Jackson interpreta o seu tio, Michael Jackson, em Michael (Lionsgate/Divulgação) O público do estádio está em êxtase diante do maior artista da música pop. No palco, Michael Jackson canta, dança e desafia a gravidade deslizando com seu moonwalk. Do outro lado da tela do cinema, a sensação se repete: espectadores acompanham o ritmo com os pés, batem palmas e balançam a cabeça. Alguns mais ousados gritam, imitando o ídolo, como se ele estivesse presente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A cinebiografia Michael é uma experiência imersiva que ilustra como o pop consegue anestesiar questões de sentido por meio da estética. Por mais críticos que possamos ser, é impossível escapar da tentação de balançar a cabeça a cada canção – um reflexo inerente às performances do filme. A produção deslumbra pela superficialidade com que trata temas complexos. A proposta é que o espectador se perca na superfície da forma, algo que impede o aprofundamento de contradições. O subterfúgio narrativo evita questões sensíveis e controversas. O desafio é atravessar essa primeira camada. A cultura pop opera em uma dimensão abstrata. Essa fantasmagoria tem a ver com os significados que atribuímos aos produtos de consumo. As representações definem a percepção de valor. O conceito de pop faz com que a cultura hipermidiatizada reorganize as relações socioculturais. No caso, tratamos do personagem que reflete o topo da hierarquia simbólica do sistema. Há uma cena em que Michael, já adulto, convida os irmãos para brincar. Todos recusam, justificando ter coisas mais importantes para fazer. Michael, então, brinca com seu chimpanzé de estimação no quarto repleto de brinquedos. Com diálogos extremamente expositivos, o filme reforça o distanciamento entre a figura de um gênio isolado e os irmãos, que são completamente irrelevantes na trama. A privação da infância é evidente, e se manifesta em excentricidades, como criar animais exóticos, ou mesmo no comportamento infantil. O roteiro sugere problemáticas futuras: os remédios, a compulsão por plásticas, a infantilização e alienação da realidade. Embora o livro do personagem Peter Pan apareça algumas vezes, o filme não se compromete a discutir os desdobramentos da questão. O recorte é conveniente, e se justifica nos créditos finais do filme, em que se verifica nomes de produtores ligados ao espólio do artista. O pai, Joseph Jackson, é o antagonista, responsável pelos traumas de Michael. Os arquétipos exagerados e sem nuances criam uma dinâmica que esquiva o astro de polêmicas. Há uma insólita complexidade na linha tênue entre sua personalidade ingênua e sua visão mercadológica afiadíssima – um artista que revolucionou a indústria. A trama é secundária em relação à teatralidade – ponto alto do filme. Os atores Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, e Juliano Valdi, fazem um excelente trabalho mimetizando as fases do protagonista. Apesar das críticas, o filme reforça o cinema como espetáculo coletivo. As reações do público evidenciam o efeito magnético do personagem. Quando percebemos, estamos anestesiados pela performance, mergulhados na irresistível textura do pop. Boa semana!