(Adobe Stock) São 7h da manhã de uma sexta-feira. Um garoto de uniforme escolar e uma pesada mochila preta atravessa a avenida da praia empurrando uma bicicleta, que parece ser um pouco maior do que ele. Ele estende a mão sobre a faixa de pedestres, e um ônibus reduz a velocidade até parar, o motorista faz sinal para os outros veículos diminuírem também. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Ele cruza a rua confiante. Ao chegar na calçada da praia, do outro lado da avenida, sobe na bicicleta e sai pedalando até entrar na ciclovia. Na calçada ao lado, um homem o acompanha com atenção. Era o pai que se certificava da segurança do menino. Ele o segue caminhando em ritmo acelerado, dando orientações, enquanto o garoto se diverte pedalando por mais de uma quadra. Uma multidão de ciclistas passa em alta velocidade pela ciclovia, tirando fina, rumo a mais um dia de trabalho. O menino nem se incomoda com a agitação da pista. O pai fica apavorado. Ele manda o garoto prestar atenção, mas o jovem parece estar mais entretido com o vento no rosto e a estranha sensação de liberdade que o ato de pedalar oferece. O garoto faz uma curva na pista de forma brusca, saindo da ciclovia, o que quase causa um acidente. Por sorte, um senhor que vinha na via oposta freou rapidamente. Após tomar mais um susto, o pai pediu que o menino tomasse cuidado e prestasse atenção redobrada ao movimento. O garoto, com a displicência da juventude, lhe respondeu que foi sem querer. Eles caminham para atravessar outra rua, e agora restava apenas uma ciclovia em linha reta, no canteiro central da avenida - cerca de dois quilômetros até a escola. O pai fez sinal para que o garoto pedalasse com atenção. Era a primeira vez que o menino iria para a escola sozinho. A partir dali, era cada um por si. Enquanto o garoto se distanciava, o homem atravessou a rua e o acompanhou discretamente pela calçada – não queria que o menino soubesse que estava sendo observado. Uma nova onda de ciclistas se aproximava, o pai começa a correr na tentativa de enxergar o garoto por trás do canteiro e dos carros. O menino havia acelerado e desapareceu do seu ângulo de visão. Seu receio é com relação aos cruzamentos. Ele vai até o canteiro central, e fica nervoso; não encontra o garoto. Em plena ciclovia, o homem sai correndo em direção à escola. Nem sinal do menino. Chegando na altura do colégio, para sua surpresa, do outro lado da rua, encostado no muro com a bicicleta, o menino lhe esperava para se despedir antes da aula. Na calçada da escola, totalmente ofegante, o pai se aproxima do filho. O garoto conta que foi tudo bem. Parou nos cruzamentos e ficou atento aos semáforos; não precisava de acompanhamento. O pai finalmente respira fundo, pelo alívio de ver o menino inteiro e com uma aura distinta de maturidade diante dele. O garoto pediu para que o pai lhe deixasse ir até a porta da escola sozinho, já que não haveria nenhum risco em pedalar aquela distância. O pai entendeu, então, que aquilo era um rito de passagem, o menino experimentara a liberdade de pedalar sozinho, a sensação de flutuar pela rua com o vento lhe soprando os cabelos. “Free as a bird”, como diz a canção dos Beatles. O menino que saiu de casa naquela manhã não existia mais; agora, o homem encarava um adolescente. E era preciso lhe tratar como tal. O pai alisou o bigode, respirou fundo e autorizou o menino a ir sozinho aquela meia quadra até a porta da escola. Antes de ir, o garoto agradeceu a confiança do pai, e aproveitou para perguntar: “Valeu, cara, mas na semana que vem eu posso vir sozinho até aqui?”. O homem sorriu e respondeu: “Você tem que crescer só mais um pouco. Aí eu deixo você ir sozinho”. O garoto deu risada. Colegas passavam a pé do outro lado da rua e acenavam para o menino, que subiu na bicicleta orgulhoso e pedalou livre até a escola, sem ninguém para lhe acompanhar. Era o início de uma nova fase, o pai recuperava o fôlego para o caminho de volta, enquanto observava o garoto indo embora – uma cena um tanto simbólica. Apesar do cansaço, havia uma sensação de dever cumprido; o menino começava a mudar, e não precisaria mais dele para tudo, nem mesmo para coisas simples, como ir para a escola. Afinal, o garoto cresceu. Enquanto caminha sozinho pela avenida movimentada, o homem reflete que há uma única certeza depois deste inusitado trajeto de bicicleta: o tempo passou. Boa semana!